domingo, novembro 27, 2011

Vaidade sobre vaidade


Elogios não me envaidecem, me constragem. Fico muito sem graça ao recebê-los. Prefiro o efeito prático das minhas prováveis qualidades influenciando pessoas e circunstâncias do que sabê-los assim, explícitos, seduzindo meu ego. O que a gente é, a gente é sendo. O que eu quero mesmo é ser um espelho, e não um móvel polido pela vaidade.

quarta-feira, novembro 16, 2011

O Botão Mágico



Comentário da minha filha um dia desses:
Mãe, você não tem a impressão de que o que existe  é só o momento que você está vivendo? Agora, por exemplo, parece que , no mundo todo, a única coisa que existe é isso aqui, o que está  acontecendo no lugar onde a gente está. Você também sente assim?

Não é curioso e mágico que as crianças do nosso mundo globalizado ainda consigam reter dentro de si  esta sensação? Apesar de toda invasão dos meios de comunicação, e todos os recursos disponíveis, inclusive redes sociais que também as afeta, este encantamento persiste inconscientemente em habitar a alma infantil?  Só receio que isto não seja uma regra.

A infância é mesmo adorável, independente das circunstâncias adversas. Sim, eu sei, existem coisas duras como fome, miséria, violência e muitos outros contratempos a que são injustamente submetidas nossas crianças, e isto afeta a poesia e a beleza desta fase tão preciosa; mas tal habilidade de “abstrair”, fantasiar e de ignorar o que está fora do mundo lúdico em que normalmente estariam inseridas é positivamente invejável, e faz razoável diferença ao enfrentarem o sofrimento e desafios da vida.
Lembro-me vagamente desta experiência, mas pelo menos ainda consigo compreender a que minha filha estava se referindo.

Hoje, já adultos, o exercício é contrário. Não são raras as terapias disponíveis justamente para ajudar o indivíduo a se desligar, relaxar, e procurar trazer à memória aspectos positivos sobre o cotidiano, sobre si mesmo, seus conflitos e problemas de peculiaridades e áreas diversas. Quantos de nós não se flagra diariamente em tentativas semelhantes,  não necessariamente estimulados por terapias, mas por decisão pessoal, pela consciência de que precisamos sobreviver, minimizar o stress e evitar as muitas síndromes e depressões? Quantas vezes não desligamos a TV, mudamos o canal ou simplesmente olhamos para o outro lado, evitando  que os acontecimentos, mesmo ainda não sendo conosco, influenciem nosso dia-a-dia, alguns deles chegando a nos consumir e angustiar?

Puxa vida! Onde será que fica o tal botão mágico na psique humana? Talvez, se resgatado,  pudesse nos transportar à uma ilusão (pois a esta altura, não há mais como ser lúdico) capaz  de nos poupar da realidade amarga e aparentemente sem solução que se tornou esta vida vivida.

Você pode escolher perguntar às crianças. Eu não perguntei à minha filha. Não tive coragem. Na verdade, foi ela quem me perguntou se eu não me sentia do mesmo modo. Lembro-me de ter respondido apenas que sabia o que ela estava querendo dizer, e que era realmente muito interessante a sensação, mas que os adultos não conseguiam sentir-se assim todo o tempo por causa das muitas responsabilidades e preocupações que têm, principalmente depois que os filhos nascem, pois, a partir daí,  um pedaço da nossa vida passa a andar fora do nosso corpo, então, não há como pensar que só existe o que está naquele nosso “particular”, no nosso momento presente, principalmente se o filho não estiver junto com a gente.

Não sei se, na prática, ela entendeu. Nem vale a pena conferir. Quanto mais tempo demorar, melhor.

Duro é pensar que existem crianças que já não mais convivem com esta experiência lúdica,  crianças das quais tão cedo foram roubados sonhos, imaginação e fantasias.  Quem os  roubou? O mundo real  provavelmente invadiu a alma daqueles que poderiam ser sua inspiração (pais, amigos, professores) de tal forma que o botão mágico da psique automaticamente se desligou para não causar danos ainda maior. Não é assim que acontece com as instalações elétricas?

Só sei dizer que estes tsunamis diários de fatos, versões de fatos, prognósticos tolos (alguns nem tanto), catástrofes  e detalhes sórdidos de cenas de violência evidente, tudo isto está me causando um curto-circuito emocional. Tudo indica que não há como frear o ritmo acelerado e intenso dessas informações, por isso, tenho buscado gerenciar minha sintonia. Sempre que puder, redirecionarei meu olhar, e decidirei qual botão, então, ligar.

Não, crianças, infelizmente não existe apenas o nosso “aqui e agora”. Mas, parafraseando o pensamento  de Richard Bach: “Se a nossa vida depende de coisas como o espaço e o tempo, então, quando finalmente ultrapassarmos o espaço e o tempo, teremos destruído a nossa fraternidade! Mas, ultrapassando o espaço, tudo o que nos resta é aqui. Ultrapassando o tempo, tudo o que nos resta é agora. E, entre aqui e agora, você não crê que poderemos tentar ser felizes?” (1)
Dentro desta perspectiva,  o paraíso é uma questão pessoal (2).

(1)   In "Fernão Capelo Gaivota"
(2)  Título de um dos livros de Richard Bach


segunda-feira, novembro 07, 2011

Frustração...


Sempre que criamos expectativa sobre alguma coisas e pessoas, há um risco iminente de nos frustrarmos. Um dos segredos da boa convivência tem a ver com nossa capacidade de reagir à frustração sem amargura, não projetar nossas reações na proporção da ação do outro, e conseguir renovar o ânimo diariamente. Ou seja, não importa o que ou quanto o vento nos leve, vale tentar ser Scarlet O'Hara a cada amanhecer!

quarta-feira, outubro 05, 2011



Sou um vocábulo sem tema,
E até sem radical,
Sou um discreto morfema
Assim, meio sem sal...

Mas todos os meus sufixos
Passam por tua oração
E aos poucos vás me compondo
Nas linhas do coração.

Nos gestos e nas poesias
Que construo ao me conjugar
Percebo que sou feminino,
Mas não sou mais singular...

Vivendo sou plural,
Somos todos,
Sem hesitar.

Plural é ser muito, é ser tudo,
É somar.
Plural é a vida, é o mundo,
é se dar.
É tudo que faz sentido
São todas as orações,
É amar!


quinta-feira, setembro 22, 2011

Fico lembrando da época em que eu elaborava menos... 
Sabe de uma coisa? A razão é um filtro muito bom, mas, às vezes, ela parece funcionar como nutricionista da alma: é importante, é saudável, mas retira do alimento a gordura e o açucar, que talvez sejam realmente desnecessários, mas que trazem sabor e prazer!
A gente começa a entender mais, só que perde a sensibilidade.

Tem coisa que hoje me parece loucura, mas que me sustentava de pé enquanto nelas acreditava!

quarta-feira, agosto 24, 2011

Por Um Mundo Melhor


A marginalidade não é mais um “assunto” a se discutir, mas um movimento contra o qual precisamos lutar; tornou-se um segmento da sociedade, um partido filosófico de atuação rebelde, arbitrária e sanguinária que envolve a própria comunidade de berço em sua defesa e cobertura, mesmo que de modo acuado.
Alguns bairros das grandes cidades, dependendo da proximidade com estas comunidades marginais, transformam-se em “quintal” de indivíduo criminosos, de seus filhos e discípulos. Pasmemo-nos, mas as crianças das chamadas favelas se “inspiram” nesses anti-heróis por seus feitos e, enquanto brincam neste enorme quintal, desafiam-se e ousam pequenas abordagens ou mesmo se planejam em grupo (tipo arrastões) para jogar polícia e ladrão de um modo bem mais realista e emocionante. É uma grande brincadeira que põe em risco milhares de vidas de trabalhadores, pais, mães e crianças indefesas, criadas com outro tipo de brincadeiras, as do tipo realidade virtual.
A questão é muito mais complexa do que podemos imaginar.
A ideia de que o indivíduo bandido era fruto de condições desfavoráveis de vida foi-se pelo ralo social... Já era! Isso não mais existe em proporções que justifiquem esforço e investimento financeiro nas bases familiares. Sem dúvida há que se prestar constante atenção aos problemas com infraestrutura dentro dessas comunidades, mas isto tem a ver com direito do cidadão, com saúde e higiene; porém não justifica mais argumentarmos que uma vez que os cidadãos moradores dessas áreas forem assistidos com respeito e qualidade de vida, teremos impacto proporcional na diminuição de pequenos delinquentes! A coisa é justamente oposta! A permissividade, o acesso fácil a bens materiais sem fortalecimento de valores, a lei do pouco esforço, nenhum estudo, tudo isto e muito mais aliados aos maus exemplos (inclusive de governantes), às leis incoerentes e à evidente impunidade, acaba construindo um império de marginalidade.
A criança não nasce um bandido, mas vai crescendo um dentro dela. Ela vai praticando furtos não mais para obter o que precisa por ser pobre, mas sim porque é assim que se faz. Porque muito provavelmente ela tem tudo, mesmo não tendo nada. Acreditem: dentro de suas casas nessas comunidades, os moradores têm eletrodomésticos, jogos, computadores, e uma enorme lista de itens que muitos de nós talvez ainda não tenhamos tido oportunidade de adquirir com todo trabalho suado e dedicação pessoal! Essas aquisições provavelmente foram oferecidas pelo crédito fácil ou pelo furto dos mais velhos, mas fato é que o adolescente e as crianças já não lutam mais para conquistar coisas, eles roubam, simplesmente porque é assim que se faz, é assim que se divertem, e o fazem com tranquilidade porque não há lei que os obrigue a se submeterem a outro tipo de ocupação, nem mesmo uma lei que os intimide ou penalize!
Mas não é somente o bandido e o acesso às drogas que cooperam para a proliferação desse tipo de crianças-infratoras e já pequenos marginais. As famílias, a mamãe que dá tudo, as compensações sem regras, as instituições de portas abertas, mas sem uma missão clara e compromisso dos envolvidos com os conceitos e não apenas distribuição descontrolada de doações, etc. Não podemos ficar sempre dando o peixe, precisamos ensinar a pescar. De verdade. Devo deixar aqui também claro que estou considerando uma parcela razoável de organizações não admiráveis, mas sei que algumas iniciativas desenvolvem trabalhos maravilhosos e de valor, portanto, são dignas do meu reconhecimento.
Eu sei que é muito complicado, mas a compreensão do problema precisa ir sendo decifrada aos poucos por todos nós para que possamos investir melhor nossas considerações, o investimento de nosso tempo, dinheiro e outros recursos. Mesmo sendo um trabalho longo e de formiguinha, há que se estar seguro e engajado. Obviamente muitos de nós não iremos usufruir dos resultados, de repente nem mesmo nossos filhos chegaram a colher os frutos de nosso esforço, mas as ações de hoje precisam estar pautadas em uma reflexão mais profunda, sobre prisma e pontos de vista corretos, ou pelo menos o mais próximo possível do realmente necessário e eficaz. Quanto não temos colhido no mundo fruto, por exemplo, do sonho desenfreado, mas engajado da geração Hippie! Parece louco isso, mas proteger o planeta não é filosofia de agora! Agora, usufruímos de uma consciência elitizada da causa, mas, gostemos ou não, nasceu no movimento hippie!
As manifestações coletivas, os abaixo-assinados, todas essas coisas são de grande valor, e quanto mais gente engajada, maior a contribuição. e a chance de obter-se comprometimento das autoridades, sem dúvida, aumenta; mas precisamos também, de uma vez por todas, entender o conceito de transformação da sociedade pela atitude individual. A minha oportunidade de fazer diferença e impactar em mudanças não está somente nessas grandes manifestações, mas também e talvez principalmente nas minhas ações e reações pontuais. A minha chance de fazer discípulos pode ser uma forte concorrência para a marginalidade, portanto, seria bom que prestássemos atenção como aproveitamos as situações para compartilhar valores, como tratamos as pessoas e como educamos nossos filhos neste sentido. A minha funcionária em casa, por exemplo, pode ser mais do que alguém que me serve na logística, na correria e nas mordomias, ela pode ser a pessoa com quem desenvolvo um relacionamento saudável e carinhoso, mas não porque faço doações com o que não me serve mais, e sim porque aproveito para ajuda-la a compreender valores, ensino coisas relevantes, e até posso influenciar suavemente as decisões e atitudes dela com sua família, promovendo, assim, uma grande corrente do bem.
Mas tudo isso tem que ser mais que teórico. Se o objetivo é vencer uma guerra. não pode haver superficialidade. A nossa maior arma será sempre a combinação do que cremos, como agimos e contra quem lutamos.
Há que se reconstruir o ser humano, não só o marginal. E a nossa guerra é muito mais do que lutar contra esses indivíduos, é talvez uma batalha contra o invisível, mas que eu acredito se revelará quando se movimentar em meio a uma luz gerada pela multidão de gente com boa intenção, boa ação e fé.

quinta-feira, julho 28, 2011

"Ars est celare artem"

A tecnologia pode melhorar processos, mas só a arte, tal qual o amor, é capaz de sensibilizar e influenciar nossa visão sobre as coisas.

Se o mundo mudou, não devemos prestigiar apenas os avanços da ciência e da tecnologia, pois fatalmente o que hoje colhemos é fruto do clamor de alguns que colocaram em risco, consciente ou inconscientemente, sua reputação em nome do pulsar histórico-social manifestado nas muitas artes do passado.

Penso que o "modus operandis" é uma versão racional do que nasceu, um dia, na alma de um gênio desmedido e apaixonado. Mas... " ars est celare artem", ou, traduzido, a arte está em esconder a arte.

Envelhecer é diferente de apodrecer

Qual seria a sua idade se você não soubesse quantos anos você tem? (Confúcio) Eu, com certeza, seria velha, em qualquer momento. Devo ter na...