quinta-feira, fevereiro 09, 2012

A Vida Por Um Fio...

A morte é como a força invisível do vento que apaga a chama da vida. Diante dela, nos sentimos frágeis, pequenos, limitados e finitos. Ela nos revela que não temos vida por nós mesmos. Somos "cheios de vida", mas não a possuímos.
Há uma fonte, e nela sim nos movemos e existimos.

Quando a chama se apaga, ela nos silencia e sensibiliza, levantando perguntas e nos levando a profundas reflexões.
Para alguns, a morte abre os os olhos racionais, tão ofuscados pelo materialismo do ter, e, pelo menos por algum tempo,  revela a própria vida, revitalizando o que nela há de essencial, seus princípios e valores que  iluminam e  lhe dão sentido. Nesta hora, questionamos o saber, o poder e a auto-suficiência; nosso orgulho,  nossas vaidades e ilusões. Quando a morte passa por perto, somos chamados à conversão. Há uma predisposição espiritual e emocional de se olhar para além do horizonte deste mundo. A existência humana torna-se, então, transcendente.  Já para outros, quando a morte passa por perto, é a chance de se desafiar os conceitos sobrenaturais da vida, a insustentabilidade racional da fé, e a existência  de um Deus. Mas, seja como for, a morte nos impacta.

Menos doloroso seria se entendêssemos a morte como a porta pela qual todos terão de passar para chegarem à eternidade, a única possibilidade real da nossa transcendência e, por meio da ressurreição, a oportunidade de nossa vida um dia continuar existindo de algum modo junto à fonte de tudo.

Quem sabe, assim, seríamos capazes de desvendar os mistérios que nos roubam a paz, ou, se assim preferirmos, simplesmente teríamos paz enquanto vivemos, mesmo desconhecendo todos mistérios... É uma escolha que, no final das contas, não afetará a revelação final, mas fará razoável diferença no modo de se ver e viver a vida...  Na verdade é uma escolha pela paz interior - nem pela angústia das aflições, nem pelo poder de dominar o conhecimento de todas as idéias ou ciências. É apenas uma escolha por viver com o coração em paz, e render-se a sublimidade desse sobrenatural.


"Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim, não morrerá eternamente. Crês nisto?" (palavras de Jesus Cristo - Bíblia Sagrada, Livro de João cap 11.25-26).

terça-feira, janeiro 24, 2012

Fala Sério!



Ando meio irritada ultimamente com campanhas que têm surgido nas redes sociais contra a Rede Globo. Fala sério, pessoal! Isso é atitude digna do Bispo Macedo! E, convenhamos, ele não é exatamente alguém inspirador, é? Não digam!  Talvez eu prefira nem saber.
Bem...
Os meios de comunicação estão aí, há muito tempo, cumprindo o seu papel. Às vezes, aquém da expectativa,  por outras vezes, surpreendendo positivamente, e por outras, decepcionando os mais cultos e apurados em seu gosto e opinião. Neste  grupo, pretensiosamente, me incluo, relacionado, por exemplo, ao BBB.
Acho que manifestar-se é sempre bom. Não só com palavras, cartazes, mas também com atitudes coerentes com nossos pensamentos e ideais. Mas desagrados não podem dizer respeito única e exclusivamente à Rede Globo! De modo geral, as emissoras, e a televisão como um todo, têm oferecido em sua grade de programação, pelo menos algumas opções lamentáveis. Vale registrar o “descontentamento”, como vale ainda mais “não assistir”. Perder audiência fala mais alto que um  blá-blá-blá de ilustres desconhecidos...
Uma coisa é você se manifestar educativamente sobre um assunto ou  programa, outra coisa é ficar conclamando segmentos  e grupos para boicotes, como se estivéssemos falando de discriminação ou  posições partidárias! Desculpe, mas não é exclusividade da Rede Globo a pornografia, ou qualquer outra coisa passível de agredir "o" e "a" moral de tão “nobre” população!

Cristianismo, para mim, não é um partido político. Sou cristã evangélica de berço, e hoje sou cristã por convicção pessoal e, numa tentativa de esforço diário, esta tem sido minha filosofia de vida. Perdoem-me, mas essa guerrinha medíocre de alguns grupos que se identificam como “evangélicos” contra a Rede Globo é pura  falta de discernimento.
Na hora de aparecer por lá, “é nós na fita”, mas, se já não “dançam conforme a minha música”, já era? Ora, ora...

Ser “sal da terra” não é exibir-se em palcos ecléticos, pegar a onda da “liberdade de expressão”, cantar músicas com texto “gospel” para as multidões e levantar a galera . É muito mais do que isso.  Essa popularidade pode até entrar no pacote, mas, decididamente, banaliza o conceito  de Gospel.

Abrindo  parêntesis: Tudo bem que, na minha humilde e conservadora opinião, o sacro deve ter o seu espaço, sua liturgia, seu envolvimento, seu clima propício. Acho lindo quando o “divino” é invocado num ambiente de comunhão. O que eu quero dizer é que, embora não exista lugar para Deus falar com a gente, eu gosto de ter um lugar ambientado para a comunhão daqueles que estão querendo falar com Deus... Não sei se fui clara. Enfim...

Seja como for, acho maravilhoso quando você usa o seu dom, seu potencial, aquilo que mais esmeradamente você sabe fazer,  e por meio disso, acaba abençoando os outros (Se for cantar para as multidões e aparecer na Globo, que seja!) Mas isso não tem a ver com “estar na mídia”. Se você for um bom médico, uma professora dedicada,  um excelente ator, um advogado justo, ou um cantor na noite com música de qualidade e boa postura, em todas estas situações, você terá a chance de abençoar e “salgar” a terra.
Cristão é um ser humano comum, sujeito a coisas comuns, mas que se esforça, seja no que for, para fazer diferença - não “na fita”, mas na vida.

Se você quer mesmo saber, eu acho muito legal o posicionamento da Rede Globo quanto à “liberdade de expressão”. Acho que esta porta abre espaço pra muita coisa interessante, como também acaba gerando desconfortos e  dando a mesma oportunidade a belas porcarias. Faz parte. É a tal liberdade. Sempre cheia de armadilhas. Mas acho que cristãos, judeus, seja quem for, uma vez parte da proposta, devem dela  usufruir, e fazê-lo com o seu  melhor., além de contar com as inevitáveis consequências. O nome disso é maturidade, e  também pode ser chamado de discernimento na tomada de decisão.

Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura para onde tu vais, não há obra, nem indústria, nem ciência, nem sabedoria alguma” (Livro do Eclesiastes  cap 9 v.10).

Seja qual for o motivo, eu sugiro que desliguemos a TV e nos dediquemos à leitura de um bom livro, ou um bom bate-papo com a família. O impacto final disso em nós será inestimável se comparado a qualquer conclamação coletiva de boicotes radicais.

quarta-feira, janeiro 11, 2012

Voltando ao Tema BBB



Não sou a favor de nenhum tipo de manipulação, seja ela cultural, religiosa, ou comportamental.
As diferenças e as escolhas pessoais devem ser, no mínimo, respeitadas e permitidas, mas isto é algo que acontece naturalmente, sem provocação de popularidade, supervalorização, nem “endeusamento” dos arquétipos, por piores que sejam.
É muito importante que meu filho aprenda a conviver indiscriminadamente com baixos, altos, gordos, magros, negros, brancos, carecas, cabeludos, homossexuais, heteros, radicais, flexíveis, etc., mas que isto seja aprendido em casa, pelo exemplo dado, pela convivência genuína  com o próximo, pelas oportunidades iguais na sociedade, e não porque fica horas diante de uma programação de TV, assistindo intrigas e intimidades de egos adultos inflados que buscam fama e dinheiro fácil (convenhamos, não é difícil!), e que são incentivados a exposição de sua libido, de seu desequilíbrio emocional e de sua capacidade de “infernizar” ou sair ileso do inferno da convivência com diferentes. (Que no fundo, literalmente no fundo, são iguais.).

Isto é um desperdício de tempo e recurso da emissora. Mas, lamentavelmente,  eles têm sua audiência...
Sim, é lamentável nos darmos conta de que o que resta de interessante na vida de tanta gente seja realmente um paredão! Ou que para os menos obcecados seja apenas divertido e relaxante ouvir e ver tanta coisa descartável!

Talvez valesse a pena um esforço mínimo de cada um para buscar aquele pedacinho nosso que pode melhorar nós mesmos, o outro, os nossos, a casa, a vida, o mundo! Somos fruto do meio. A gente fala o que pensa, e nossos pensamentos e reflexões são resultado de tudo que lemos, ouvimos, assistimos, convivemos, e conhecemos. Quanto mais eu me envolver com coisas boas e enriquecedoras, melhores serão minhas relações, minhas conversas, e minha troca de conhecimento. Coisas que verdadeiramente edificam, ou seja, constroem relacionamentos sustentáveis e de valor.

Acorda, pessoal! A vida é muito mais que BBB e Michel Teló! E se você já é um caso perdido, poupe pelo menos suas crianças de uma formação tão sem horizonte cultural!

terça-feira, janeiro 03, 2012

Sobre aprender a andar descalço...



Respeito é  imprescindível  e saber conviver com diferentes é uma arte, das mais nobres, eu diria. Não podemos obrigar às pessoas funcionarem dentro dos nossos parâmetros. Mas  desejar isso  de vez em quando é normal. 

Eu, por exemplo, aceito as diferenças, me submeto a algumas, mas tenho dificuldade em  conviver  intensa e transparentemente com determinadas pessoas e circunstâncias.  Não me refiro à aparência, idéias ou condição, mas a um mínimo de princípios! Só que inevitavelmente isto acaba esbarrando na educação, nos hábitos, na postura... E aí? Se eu não gosto ou não aceito é discriminação? É uma bela de uma saia justa, isto sim.

Mal comparando, respeitar as diferenças seria como entender que nem todo mundo usa o mesmo número de calçado e nem escolhe os mesmos caminhos. Tudo bem. Então está claro que, em muitos momentos, não caminharemos juntos. É assim? A tão famosa liberdade? A tal que termina a minha quando começa a do outro? Dizendo assim, parece bonito, mas na prática é tudo muito complicado.

Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém” já dizia o poeta Vinícius de Moraes, e eu concordo. Por isso é difícil conviver intensamente com gente de diferentes princípios.  Das duas, uma: ou os conflitos nos separarão, ou vou acabar andando com o sapato dos outros. E, convenhamos,  dependendo da situação e das proporções , incomoda e machuca... Não vale a pena.

Pensando bem, respeitar as diferenças seria sobreviver às relações, e amar de verdade implicaria em andar ambos descalços. Sim, talvez os caminhos até tenham a ver com princípios, mas sapatos e parâmetros são amarras, e eu tenho mesmo muito o que aprender.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Resumo

Se a vida fosse uma história
escrita com papel e tinta
e, se rasurada, fosse ainda
um pouquinho vivida,
eu redigiria os instantes
num texto de parágrafo extenso
e realizaria excitante
o meu sonho mais intenso!

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Carta à Jornalista Eliane Brum (Revista Época)

Para entender melhor meus comentários, aqui está o link da matéria da Eliane: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/11/dura-vida-dos-ateus-em-um-brasil-cada-vez-mais-evangelico.html#header_comentarios

A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico

Prezada Eliane,

Bom dia (ou boa tarde, ou boa noite... Afinal, não sei em que momento você terá oportunidade de ler minha mensagem).

Peço licença para invadir sua caixa de e-mails, e espero que meus comentários sejam recebidos e considerados com a mesma disposição que me conduziu ao escrevê-los.

Pelo assunto acima descrito, você obviamente sabe que tive a chance de ler seu artigo a respeito. Muito bom o artigo, por sinal. Mas, não vou ser hipócrita e dizer que gostei de ler. O artigo está muito bem escrito, e seus comentários são pertinentes, bem fundamentados e criativos. Contudo, talvez justamente por fazer sentido, sua constatação me incomoda.  Mas eu gostaria de compartilhar com você mais do que esta constatação da febre denominacional religiosa sem controle, fanática e irracional. Eu quero (quem sabe) tentar fazer você perceber que a “coisa não é tão feia quanto você imagina”, e que pode ser vista sob um outro ângulo.

Vou te dizer que entendo perfeitamente o seu sentimento. Já estive em situação de igual desconforto, porém com um preconceito muito mais evidente e bulling descarado. Sabe quando? Durante toda minha infância,  adolescência e parte da juventude. (Tudo bem que naquela época eu nem sabia o que era bulling. Risos)
        
Sou cristã evangélica de “berço”, e devo te confessar que a vida não era assim tão fácil – embora eu tenha saudade de alguns aspectos que a caracterizavam.
Ser “crente” na minha época era ser sacaneado (perdão pelo termo) e discriminado na escola; era ser vítima de musiquinhas depreciativas que rimassem com palavras chulas e feias e ser rotulados de “Bíblia” e “pouco inteligente”. E olha que não havia nenhum movimento, nenhuma conscientização coletiva, nem qualquer tipo de código de Lei e conduta que nos protegesse ou beneficiasse para que, na possibilidade de uma denúncia, os “não-Bíblia” se intimidassem.  Havia uma premissa evidente de que éramos desprovidos de cérebro por professarmos uma fé que, na ocasião, sustentava também um certo padrão de hábitos e comportamentos “caretas”.
    Como você pode ver, sei bem como era dura a vida de um cristão quando o Brasil não era assim tão “evangélico”, e posso te garantir que não era mesmo nada agradável e bem menos passível de uma convivência saudável entre desiguais. Era tão evidentemente discriminativo que eu me recordo de “me envergonhar” de ter que dizer para uma amiguinha que era “crente”. Ou seja, o que você diz sobre “cada um professar a fé ou não-fé que quiser” não era sequer passível de discussão. Mas, por motivos os mais variados, intrigantes e interessantes, isso mudou.

Em seu artigo, você diz que o seu interesse é tentar compreender como essa porção cada vez mais numerosa de fiéis está mudando a forma de ver o mundo e de ser brasileiro.  Acho muito positivo o interesse, mas discordo do foco de sua reflexão. Tentar discutir esta mudança de comportamento perguntando “Por que os ateus  são uma ameaça às novas denominações evangélicas”, em minha opinião, não é o melhor caminho , nem é uma análise desprovida de “conflito de interesse”. Talvez fosse mais proveitosa uma abordagem menos pessoal, o que não desconsideraria em nada muitas das questões levantadas em seu artigo, como, por exemplo,  a igreja como vitrine de consumo, shopping de fé, etc.  Esta é uma “cara” diferente do protestantismo que merece discussão, até para arriscarmos não só entender como isso influencia o povo, mas também para tentar – quem sabe - “livrar” alguns um pouco mais esclarecidos de uma provável “lavagem cerebral”  de gente mal intencionada.
Deixe-me colocar um parêntesis aqui:  eu ainda acredito que essas coisas passarão, e que os caráteres se revelarão, e que os que nisso se envolverem por uma boa causa e um bom coração, de um jeito ou de outro, sairão ilesos e, ao fim, seja como ou onde for,  todos receberão suas partes neste latifúndio...

Bem, Eliane, embora não tenhamos afinidade de “fé”, saiba que essas versões  “sem eira nem beira”  da religião protestante também muito me desagradam. Algumas atitudes de seus líderes inclusive ferem bases fundamentais e primárias do cristianismo a que se dizem seguidores. É realmente um absurdo. Mas gostaria que você procurasse descobrir outros perfis de cristãos evangélicos e os considerasse em suas investigações. Pude perceber que você conhece razoavelmente o perfil sócio-cultural-comportamental deste grupo, o que demonstra seu grau de competência profissional. Acho isso bárbaro. De verdade. Por este motivo, achei que valeria a pena te enviar uma mensagem.

Quero te trazer para o meu ponto de vista dessa mudança no “jeito de ser” da fé no Brasil.
Como alguém que foi vítima de preconceito religioso no passado, é claro que eu prefiro viver num momento do país onde a minha fé é, digamos, “bem vista”. Além desta, existem outras razões para eu “preferir“ este momento, afinal, eu também evoluí. As bases em que foram fundamentados meus conceitos religiosos foram sólidas em seus princípios, mas falhas em seus dogmas e processos. Óbvio. Tudo que passa pela compreensão do homem está passível de erro. Mas, com o passar dos anos, o acesso às informações e a curiosidade pessoal, fui descobrindo riquezas da história e da cultura cristã que não eram sequer consideradas, e detritos supervalorizados que não fariam a menor diferença se desprezados.  Assim, fui definindo uma opção pessoal da minha prática de fé, e, com outros que compartilham desta mesma experiência, tenho caminhado. Nesta caminhada, algumas coisas são inegociáveis, e outras flexíveis a uma nova compreensão. E este é o meu ponto de vista. O mundo vem mudando, e isso traz vantagens e desvantagens. Temos que examinar tudo e reter o que for proveitoso.  Você bem sabe que toda transformação no mundo passou por essas aberrações.
Não se deixe surpreender somente por casos como o das filhas da Baby e do Pepeu Gomes. Permita-se descobrir que, de repente, eu e você podemos caminhar juntas de verdade, contribuindo com os nossos conceitos flexíveis para uma vida abundante no real sentido que dela pudermos extrair como seres pensantes.  O taxista não deve ser o seu referencial único. Convenhamos; às vezes, fica difícil argumentar qualquer tipo de assunto com determinados “personagens” do dia-a-dia, não é? Há que se relevar, ajustar o canal, e buscar outras sintonias para a convivência. Isso não acontece só relacionado a religião.

Te convido a conhecer muita gente que está disposta a caminhar com ateus. Prometo não tentar “te converter”( Risos).  Mesmo porque, Eliane, se Deus existe ou não existe, de verdade, não depende em nada do que eu e você pensamos a respeito! Ele decididamente não deve precisar de nossa opinião para existir.

Obrigada por me “ler”, e parabéns por seu trabalho.

Um abraço.

Elizabeth Bittencourt de O. Furtado


segunda-feira, novembro 28, 2011

Maternidade (Repostagem)


Não sei dizer se é uma experiência comum a todas as meninas, mas o meu “desejo de ser mãe” nasceu cedo.

Naquela época (quando ainda era criança), não adormecíamos em frente da TV, portanto, o tempo que meu sono demorava chegar era preenchido por minhas montagens imaginárias das mesmas cenas, noite após noite. Posso dizer que sonhava acordada até dormir. O mundo que desenhava em meus sonhos sempre passou pela casa cheia de filhos e amigos, pelo cheiro bom de comida sendo preparada, pelo jantar à mesa, pela conversa no sofá e por um quintal grande e com plantas. Claro que havia muita inspiração: as figuras de minha própria família - meus irmãos (de verdade, intensidade e cumplicidade), uma avó temperamental e adorável, um monte de parentes que traziam confusão e, paradoxalmente, também alegria; algumas figuras da vizinhança, do amplo grupo de amigos de meus pais, da igreja, etc.


Sonhava em ser “Maria”.

O tempo foi passando, a vida acontecendo, e eu fazendo aquelas coisas normais como estudar, brincar, namorar, terminar o namoro... O Vestibular, a faculdade, o primeiro emprego... Alegrias, atropelos, começos, fins e recomeços, ambição com foco errado, frustração, e o sonho de Maria ardendo em meu coração.
A idade avançava, muitas coisas aconteciam, a vida não perdoava as mancadas, batia forte, e doía, doía muito. As conseqüências das ansiedades do meu coração se faziam ver nas cabeçadas que dava. A família, os amigos - e alguns inimigos (todo mundo tem) – assistiam; mesmo porque, nessas coisa, não há muito o que se fazer... As escolhas são sempre nossas, certas ou erradas.
Um dia, depois de muito remar contra a maré, e achar que podia cuidar da minha própria vida, decidi “jogar a toalha”. Tomei atitudes práticas que evidenciassem a decisão da minha alma, que era básica e explicitamente dizer: “Deus, não vou mais lutar, nem confiar em meu próprio entendimento. Vou te dar a oportunidade real de me fazer feliz, reconstruir minha vida cumprindo a sua vontade e realizando meus sonhos.” Assim, para reescrever minha história, comecei mudando o “pano de fundo”: deixei o Rio de Janeiro e vim morar em São Paulo.

Enfim Deus abriu o céu e fez chover sobre minha vida, reforçando seu insondável amor, e presenteando-me com os sonhos do meu coração!

Contando assim, parece que foi tudo rapidinho, mas não foi não... Não foi mesmo!...
Embora não tenha sido "num passe de mágica", foi, de certo modo, "mágico"!

Casei-me, e dos compromissos resgatados por mim em minha união, Deus nos deu Vítor e Letícia. Vitória e Alegria!


O tempo continua passando, a vida segue acontecendo, e eu ainda faço coisas normais todos os dias, mas, de algum modo, sou “Maria Maria” - “uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer no planeta” (trecho música M.Nascimento/F.Brandt).


Justificando, então, o tema de minha reflexão, eis o que a maternidade me ensinou:

1. Primeiro de tudo, obviamente, aprendi a esperar.
O tempo nos proporciona uma releitura atenciosa da dor, das dificuldades e de nossos erros, mas todo esse aprendizado só é amadurecido e resgatado em nossa consciência quando o desejo é alcançado (“A esperança demorada enfraquece o coração, mas o desejo chegado é arvore de vida” - Provérbios 13:12);
2. A maternidade me revelou um novo DEUS. A nova perspectiva me fez entender melhor o relacionamento com o Deus que chamamos de “Pai de Amor”. Posso imaginar melhor, analogamente, porque Deus me ama apesar dos meus erros, porque é tolerante com minhas mancadas e tentativas frustradas... 
3. Aprendi sobre minha própria mãee com ela tenho tentado estabelecer uma relação mais terapêutica e menos complicada! Ser mãe de meus filhos me fez entender seus erros e acertos, e lidar melhor com as conseqüências de tudo isso na minha própria vida.
4. Aprendi sobre dependência. Vi que sozinha dependo de Deus, e não valorizo, mas, ao cuidar de uma vida que é pedaço de mim, diante de minha impotência humana, sou refém do amor, das misericórdias e do poder de Deus.
5. A oportunidade de ser mãe decididamente me ensinou sobre PERDÃO! Experimentar a maternidade foi como se Deus imprimisse em mim a certeza empírica de seu perdão. A verdade é que qualquer coisa que tivesse cara de uma vida arrumadinha e decente já me traria certa tranqüilidade, mas Deus fez mais que isso! Ele quis que eu soubesse e sentisse toda intensidade de seu perdão, ou seja, todos as lembranças que hoje recordo com lamento, Ele apagou, e fez questão de deixar isso claro nos detalhes da minha estrutura de vida!

Bom... A Lista seria longa... Mas talvez eu possa resumir dizendo que finalmente entendi parte da profecia de Jeremias 29: 11-14: “Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o SENHOR; pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais. Então, me invocareis, passareis a orar a mim, e eu vos ouvirei. Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração. Serei achado de vós, diz o SENHOR, e farei mudar a vossa sorte; (...)”

Por último, gostaria de compartilhar duas citações registradas por Brennan Manning em seu livro “O Impostor que Habita em Mim”:

Sem suas feridas, onde estaria o seu poder? É sua melancolia que faz sua voz baixa estremecer dentro do coração de homens e mulheres. Nem mesmo os próprios anjos conseguem convencer os filhos miseráveis e desajeitados na terra como consegue um ser humano quebrado pelas rodas do viver” (1)

Negamos a realidade do nosso pecado. Numa tentativa fútil de apagar o passado, privamos a comunidade do dom de curar que temos” (2)

Ler isso fez muito sentido para mim, por isso quero sempre poder escrever e, quando oportuno, falar sobre tudo o que tenho provado e vivido. Acho que Deus pode abençoar muita gente com minhas experiências, e oro para que Ele assim o faça. Sinto que foi para isso que Ele me criou. Para ser Maria e abençoar Marias e Josés a quem Ele também ama e quer ver feliz!

Por Beth Bittencourt

(1) Thornton Wilder, The Angel that Troubled the Water
(2) Brennan Manning, O Impostor que habita em Mim

Envelhecer é diferente de apodrecer

Qual seria a sua idade se você não soubesse quantos anos você tem? (Confúcio) Eu, com certeza, seria velha, em qualquer momento. Devo ter na...