domingo, agosto 07, 2016

Perguntaram-se sobre a febre do PokemonGo...



Nasci em lar cristão-evangélico, e vivi minha adolescência por lá, nos idos anos 80. Uma época onde Gospel não era “moda”; cantores cristãos e padres modernos não habitavam a mídia com popularidade,  nem os ritmos das canções chamadas “sacras” variavam além do tradicional americanizado ou abrasileirado no estilo sertanejo (ainda que imperceptível). Ou seja: bem diferente da atualidade.

Na mesma época, lembro-me perfeitamente que, em determinadas denominações e seitas,  a guerra entre Deus e o Diabo era conhecida por manifestar-se misticamente no plano físico, dentro e entre as pessoas da comunidade. Era como se os “crentes” vivessem num plano paralelo de santidade; santidade esta que se evidenciava forte e pretensiosamente na aparência de alguns fiéis: não cortavam cabelos, não usavam short, calças compridas ou saias curtas; não dançavam, nem frequentavam ambientes “mundanos”, tipo danceterias, festas juninas ou coisas parecidas. Os shows de exorcismos roubavam a cena da liturgia eclesiástica. Feita para gerar um ambiente de adoração e contemplação, a atmosfera do culto acabava perdendo o propósito e tornava-se ringue das das lutas entre “deus e o diabo”...

Contemporâneo a todo este absurdo dogmático, havia também uma febre de “guerra às mensagens subliminares do mal” presentes em músicas, quadros, jogos, TVs e algumas outras mídias. De lá pra cá, muita coisa  mudou. Saudosismos e nostalgias à parte, ganhamos muito. Mas acredito que ainda existe um longo caminho a percorrer.

Recentemente, chegou ao Brasil a tão esperada febre do PokemonGO – algo mais ou menos assim:  um joguinho que se vale da câmera dos smartphone, GPS e mapas reais das cidades para trazer a sensação de que o mundo real se une ao virtual espalhando “monstrinhos” esperando para serem caçados. O lançamento do aplicativo trouxe à tona uma série de notícias bizarras nas redes sociais. Novamente o universo espiritual está sendo evocado como a grande mente engenhosa por trás do jogo. Nessas notícias, PokemonGO virou ferramenta de alienação e terrores noturnos infantis, influência diabólica, uma nova porta aberta para entrada do mal nos lares!

É impressionante como reduzimos o Divino e as coisas espirituais ao tamanho de nosso cérebro, neuroses, visão curta, distorcida e descabida!

Sempre que me deparo com eventos desse gênero, lembro-me das mensagens subliminares e os muitos outros  “demônios” que aprendi evitar desde pequena para não ser “contaminada” e receber a tal marca da Besta! E o que isto fez de bom por mim? Ouso dizer que minhas maiores e mais doloridas quedas na caminhada teve a ver com o que não me contaram, com o que não me deixaram ver e ouvir, e não me explicaram.

Os quadros com monstros escondidos, os discos tocados ao contrário e o medo de “errar com Deus” não me tornaram um ser humano melhor, nem mais espiritualizado. Infelizmente acabei errando muito para conhecer parte do que de Deus eu pude conhecer até hoje, e que ainda me parece tão pouco...

Queria ter errado  menos, mas não foram as mensagens subliminares as responsáveis por minhas fraquezas, nem qualquer outro aparente tropeço; fui eu mesma, meu ego, meu livre arbítrio, minhas escolhas. Mas... Como Deus é muito maior do que nossos conceitos arrumadinhos, foi justamente nos desvios da estrada e nas experiências humanas (e não com monstrinhos virtuais) que fui aprendendo sobre o bem e o mal, sobre perdas e ganhos, sobre chorar e sorrir...

Queridos, todos estes nossos conceitos são fruto de limitação humana. O próprio Jesus disse: “...seus ensinamentos não passam de regras ensinadas por homens. Ouçam e entendam: O que entra pela boca não torna o homem mal; mas o que sai de sua boca, isto sim o torna mal ". (Mateus 15:8-11)

A tecnologia ainda nos reserva  muita coisa que nos deixará boquiabertos - refiro-me a minha geração.  Não temos que necessariamente nos assustar com isto, mas podemos inclusive nos encantar, e usufruir o quanto der, e nosso cérebro idoso conseguir atingir!

Eu acredito que a solidez e o equilíbrio das  futuras gerações (e até de nós mesmos) não está nas novidades cibernéticas e nos avanços tecnológicos! Na minha opinião, gente feliz é gente resolvida, que se aceita, se ama e respeita, e que ama e respeita o outro; e só sabe amar quem recebe amor, pois só se aprende profundamente o que  é experimentado.

“Conte-me, e eu esqueço. Mostre-me e eu apenas me lembro. Envolva-me e eu compreendo” (Confúcio)

Quem ama, envolve, ensina e aprende, e vive em paz. E quem vive achando diabo em tudo, definitivamente não vive em paz.



segunda-feira, julho 18, 2016

Aterrorizados, mas não derrotados.


Olhar para o terror e ainda apostar num “inferno” como recompensa mítica é, no mínimo, preguiça de pensar. O nosso real galardão é paz, amor e justiça; novos céus, nova terra, e vida eterna. Não existe figura feia, com chifre, rabo ou tridente capaz de devastar mais o ser humano que o próprio ser humano que abre a porta da sua alma para o mal. Não existe maior demônio que o nosso EU que, acreditando-se absoluto e com poder, influenciando ou sendo influenciado, dedica-se a  seduzir o mundo contra a paz, o amor e a justiça, confundindo seus valores e roubando-lhe a esperança.  
O inferno não são apenas os outros, como dizia Sartre, o inferno somos nós, a partir de nossas escolhas e portas abertas, a partir do que fazemos com nossas angústias, nossos sofrimentos, vaidades e ambições; e isto pode ser catastrófico em qualquer lugar e forma de expressão. Pode estar num púlpito explorando fiéis, num quarto planejando suicídio, atirando contra inocentes, explodindo ambientes, valendo-se da dependência e do sofrimento dos frágeis para tráfico e prostituição... A nossa guerra diária já é contra o mal. O Terrorismo é apenas uma das muitas faces do inferno.
Mas e as vítimas? Bom... Eu concordo e acredito no mesmo que afirmou Teilhard de Chardin: “Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana”. Daí, nosso livre arbítrio tem o papel fundamental de definir o lado que escolhemos ficar. Todos estamos numa peregrinação terrena, o que implica em esforços e fortalecimento constantes para as grandes e pequenas batalhas diárias. A nossa luta não é meramente física e emocional, vai muito além disso. Humanamente falando, todos somos aparentes vítimas, em algum momento. O ideal seria que os nossos propósitos de vida  estivessem alinhados com a premissa de que o tempo urge, precisa fazer sentido, e deve agregar valor. Deixar um legado não é exclusividade de ricos e famosos; todos temos “a parte que nos cabe neste latifúndio” *, e nossos exemplos, influências e inspiração precisam ser levadas a sério, como quem passa adiante um bastão numa maratona.
Não obstante as inevitáveis consequências do sofrimento humano em toda sua amplitude e esfera, a vida é um dom, e mesmo que esta nos seja ceifada enquanto experimentada em forma humana, não deve ser menosprezada, pois a cereja desse bolo estar por vir, a guerra em si já foi vencida. Nossa missão  é resgatar a cidadania divina – em nós e nos outros, para que, um dia, quem sabe, já não existam mais perdidos pelo caminho...
Assim, se sairmos de cena, voltaremos à fonte; todos nós -  A quem a vida, a vida; a quem a morte, a morte.
E, para aquilo que eu ainda não entendo, escolhi as palavras do Apóstolo Paulo em sua carta aos Corintios como verdade:

"Pois em parte conhecemos e em parte profetizamos;
quando, porém, vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá.
(...)
Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido.
Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor."

* Poema - Morte e Vida Severina


quarta-feira, junho 29, 2016

APOCALIPSE



Deixem-me lhes contar uma coisa.
Durante a minha infância, eu tinha muito medo do livro de Apocalipse. Quando ouvia a leitura da Besta, dos chifres, dos castiçais.... Ai que medo!!

No meio cristão, todo mundo se metia a entender, colocando-se no pedestal de “mestres no assunto”, cada um pregava uma versão mais assustadora que outra. Eu vivia esperando o mundo acabar, e achando que até o simples escrever “ 666”  era perigoso!  
Do modo que era colocado, realmente deixava qualquer criança apavorada! Mais que Teletubbies (parêntesis total: aff! Nunca houve nada tão esquisito na TV!!!! Risos)

Voltando:
Bom... Eu cresci.  E devo dizer, com certo constrangimento, que faz pouco tempo (comparativamente falando) que joguei fora as interpretações aprendidas e simplesmente reaprendi a ler e ouvir o livro de Apocalipse restringindo-me a dizer “Uau!”.
Sabem de uma coisa? Hoje, Apocalipse me fascina! Mesmo não conseguindo decifrar toda a riqueza dos seus símbolos, fico sobrenaturalmente tocada pela “vibe” da narrativa! É então que percebo que alguma coisa dentro de mim – que parece dizer a respeito de quem eu sou, de onde venho e para onde vou – se reconhece, e se emociona.
Pode até ser a “maior brisa”, mas é tão empírico quando sinto que, para mim, é espiritualmente real.
Sem medo, e sem qualquer pretensão intelectual de entendimento, eu sigo dizendo UAU! Porque, neste caso, deter-se  a um  entendimento fiel e único é como olhar um Van Gogh e tentar descobrir a marca da tinta e o tamanho do pincel que ele usava! Mesmo que você pesquisasse a respeito, desperdiçaria um tempo precioso de simples contemplação e encantamento.

Aliás, às vezes, contemplação é tudo.

"A contemplação são os olhos da Alma" (Jacques Bossuet)



quinta-feira, maio 19, 2016

Tolerância Também Se Aprende





A gente tem a mania de congelar os momentos, e classificar as situações  conforme  os conceitos aprendidos em nossa época de curta experiência de vida, enquanto todos os eventos e momentos da história carrega a potência de milhares de outras histórias passadas. Por exemplo,  o papel social da figura feminina na história. Quantas  mulheres  foram rotuladas, abusadas, discriminadas, "mal faladas" e até mortas para que algumas mudanças fossem finalmente concretizadas  e as usufruíssemos hoje?!

Por mais banalizado que o tema possa  parecer, eu digo que os detalhes são erroneamente subestimados, por não mensurarmos o real Impacto das ações do tempo presente no futuro de toda uma sociedade;  e isso não tem a ver com ser machista ou feminista, tem a ver com garantir sentido à existência,  plenitude aos propósitos da vida humana  em sociedade, independente de cor, gênero, posição social e credo.


Pergunto-me quão tolerante temos sido com a história de mulheres que hoje em dia ainda ousam em seus posicionamentos – dignos, admiráveis, não convencionais,  assustadores,  ou indecentes . Todos  merecem nossa predisposição desarmada a respeito. Devo considerar que minha simples empatia me torna parte ou me exclui de contribuir com mais um tijolinho na construção do mundo em que meus filhos viverão.  Eu, particularmente, devo isso aos meus, afinal, esta lição eu aprendi com eles.

Imagem: Vitor Furtado 

quarta-feira, maio 18, 2016

Espiritualidade Pura e Simples

A busca por Deus geralmente passa pela religião,  mas, transcorrido o tempo da religião, a Sua revelação nos leva além, a uma vida abundante, uma espiritualidade plena, livre e verdadeiramente significativa, onde o culto é a entrega diária e indiscriminada de quem somos, onde estamos e o que fazemos. 

segunda-feira, maio 02, 2016

Coisas que fico pensando Quando Converso Muito com Meus Filhos...


Ter filhos e acompanhá-los num relacionamento sincero, intenso e transparente nos desafia como pais  e como gente. E, sobre isto, digo-lhes que, muitas vezes, precisamos  saber perder, ou pelo menos reconhecer as riquezas que esta  relação  entre gerações  diferentes pode nos proporcionar. Uma delas é o novo olhar sobre o Mundo, e uma leitura despretensiosa de tudo que já não nos é tão familiar...
Há que se ter mente aberta, flexibilidade, e certa dose de  desprendimento  para se reconsiderar opiniões e impressões sobre a vida, seus movimentos, suas formas e funções, e, então, definir o que é eterno, e o que é negociável. 
As coisas se resignificam - histórica e socialmente, é fato.

Partindo desta premissa, eu comecei a considerar o seguinte: 
Na transcendência da vida humana, a fé é um fluido onde muitas coisas se movimentam, é o lubrificante das  engrenagens da vida, engrenagens estas diversas, e passíveis de novos conceitos, entendimento e revelações. Cada dia, um novo dia, tudo novo...  Ou seja, não existem impressões  congeladas ou opiniões imutáveis.
O mundo gira, o tempo passa, e coisas mudam...  E a fé segue sendo aquilo que faz tudo funcionar sem ranger ou quebrar, mesmo que o mecanismo se altere.

Ora! Deus é atemporal! Nele não  há evolução ou regressão, Ele simplesmente é, e o seu ser é essencialmente amor - e este amor é o combustível indispensável, propulsor do motor da vida.
A fé e o amor sobrenaturalmente se encaixam nos inevitáveis ajustes do universo, e, neste, Deus é, e segue sendo humanamente inatingível.
O tempo não afeta Deus, logo,  nenhuma verdade circunstancial, conceitos de época, ou qualquer coisa que sofre o tempo e desafia nosso entendimento pode se justificar ou sustentar-se na aparência primária das coisas, no conservadorismo, ou nas tradições. Há que se renovar o entendimento, e deixar-se ser movido pela fé, e pelo amor, 

“...transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. (Romanos 12:2)

Envelhecer é diferente de apodrecer

Qual seria a sua idade se você não soubesse quantos anos você tem? (Confúcio) Eu, com certeza, seria velha, em qualquer momento. Devo ter na...