terça-feira, março 02, 2021

Sobre Big Brother - do Grande Irmão ao BBB

 



No Brasil, o Reality Show está em sua 21a edição, e eu comecei a assistir a partir da edição anterior, a de número 20.

Esse nome - BigBrother - foi inspirado num livro - ¨1984¨, de George Orwell.

1984 é o título do livro, que foi lançado em 1949, e foi o último de Orwell antes dele falecer. Eu li 1984 em pleno ano de 1984. Estava na faculdade. Nada mais indicativo do que analisar a obra no ano que dá nome a ela. Em 1984, o livro já fez sentido, hoje, então, daria pra fazer uma dissertação específica só sobre isso! Mas 'bóra' seguir.

O livro não é uma proposta de Reality Show, obviamente. Ele pode ser considerado como DISTOPIA, que seria mais ou menos um contraponto da UTOPIA. Enquanto a utopia você lida com um sonho ideal, mundo cor de rosa (e azul, rsrsrsrs), com arco íris e pote de ouro debaixo dele, a distopia é um imaginário com uma pitada forte de infelicidade, angústia, medo, solidão, e fatalidades.   A gente conhece bem esse gênero em diversas obras cinematográficas de ficção.

A história é ambientada numa região “X” do mundo, provavelmente próxima de onde vivia o autor (Grã Bretanha), num futuro imaginário (já que foi escrito em 1949).

No livro, Big Brother é um dos personagens centrais da trama (O Grande Irmão). Ele é o líder  de um governo déspota, autoritário, que não pode ser contrariado. Tem muitos outros personagens interessantes obviamente - o protagonista (Wiston Smith), que narra a história, a mocinha por quem ele se interessa, que é reacionária, e um falso camarada,  que, na verdade, é um traidor infiltrado; enfim, é uma história com um cunho sócio político fortíssimo.

O que nos remete à analogia do BBB é que eles vivem nessa região fictícia, vigiados o tempo todo pelo que o autor chama de TELETELA - uma tela (tipo uma TV), presente em todas as residências, que não pode ser desligada, apenas ter seu volume diminuído, pq ela serve tanto para transmitir as informações ditatoriais do governo, quanto filmar tudo que acontece dentro das casa.

Bom, eu ficaria horas falando sobre o livro porque é extremamente interessante, e muito atual, embora tenha sido escrito há mais de 70 anos. O que nos faz ver que algumas coisas não mudam, e que o bicho homem é mesmo uma coisinha previsível, influenciável, e, dependendo do tamanho do ego, o próprio demônio. 

Sugiro a leitura, porque vale a pena. Mas e o nosso BBB?

Bom, o primeiro carinha a ter a brilhante ideia de montar uma paráfrase esvaziada de  conceito da obra de Orwell foi um Holandês, se não me engano, nos idos dos anos 90. Depois, as emissoras, interessadas na audiência do programa, foram “comprando”  o direito e replicando o seu formato. Daí, então, chegamos ao BBB - que é o BigBrotherBrasil.

Eu não tenho paciência para reality show. Para mim, só o fato de uma pessoa saber que está sendo filmada já compromete a legitimidade do que é mostrado em 99%. Por muito tempo, eu fui inclusive militante contra o BBB. Na minha cabeça, era como se colocassem um monte de gente numa jaula, e me fizesse abrir mão do meu tempo precioso para assistir pessoas se expondo, muitas vezes, sem um mínimo de conteúdo, o que não me acrescentaria nada.

A minha opinião não mudou de todo, mas houve um reajuste de pensamento, um aprendizado pessoal.

Meus filhos cresceram, hoje são jovens adultos, e, ao longo da nossa convivência, eu precisei mesmo rever muitos conceitos, em relação ao meu modo de olhar a vida, o comportamento social, e minha rigidez de posturas e de opiniões temporais.

Aos poucos, fui partilhando do mundo que eles vivem, e percebendo cada dia mais que uma caminhada familiar saudável deve ter troca de experiências, aprendizado recíproco, e muita discussão, obviamente. Educar é um processo com prazo de validade, inspirar é uma coisa mais contínua e duradoura, mas a noção de certo e  errado acontece na relação pais e filhos até um determinado momento, depois, o que fica é o suco do que se construiu, é o amor envolvido, e os valores pregados e praticados. Depois que os filhos crescem, vivenciamos desafios diários de gerações, opiniões, e outras coisas mais.

Quando percebi que gostaria de manter essa troca com meus filhos, eu comecei um exercício de autoconhecimento, de flexibilizar pensamentos, de ressignificar minhas verdades pessoais. Foi muito saudável, melhorei como pessoa, e sigo caminhando. Foi aqui, então, que comecei a considerar assistir BBB com minha filha, para poder continuar conversando com ela sobre tudo, e ter legitimidade nos meus argumentos.

Paralelo a isso, uma das atividades no meu trabalho passava por mentoria com um time de profissionais jovem, com quem estabeleci uma relação de afeto, e, no andar do processo de mentoria. Muitas questões pessoais eram trazidas, e me davam oportunidade e permissão para orientar, e compartilhar minha experiência. Uma das meninas da mentoria me trouxe o assunto BBB, e me surpreendeu com um comentário: “você deveria assistir BBB como suporte para seu trabalho com pessoas, Beth. O que acontece lá, eu vejo frequentemente acontecer no nosso dia a dia”. Nesse dia, voltei pra casa pensando, juntei com muita coisa que ouvia dos meus filhos, e cheguei a uma conclusão: Qual tinha sido a última vez que eu havia flexibilizado uma ideia rígida minha, saindo da minha supremacia do correto?

Obviamente, nossos valores costumam ser inegociáveis, mas ali, não era uma questão de valores, era uma questão de leitura de vida, de investimento intelectual, de opinião. Eu não estava indo matar, enganar ou trair alguém; e também me dei conta de quem eram as pessoas que estavam tendo essa argumentação comigo, da abordagem e da base da nossa relação. Por que ser tão inflexível diante de uma situação tão leve, de terreno agradável e fértil?

Como estava no início da 20a edição, joguei a toalha, e abracei a vida fútil de telespectador de BBB.

Foi muito bom. O Reality Show? Não necessariamente. Este ficou dentro do esperado. O que foi muito bom foi a minha experiência de fazer algo fora do meu script, e o descortinar dos meus olhos para um mundo que não acontecia dentro dos meus parâmetros, de minhas interações seletas, minha intelectualidade, e meus achismos, mas que fazia parte da não limitação humana - positiva e negativamente falando; e que extrapolou para o universo paralelo das redes sociais, com a mesma “pegada”, ou seja, naveguei por perfis nunca dantes navegados a partir de comentários e hashtags relacionados ao BBB e seus participantes.

Saldo: positivo. 

Deixei de ser ativista CONTRA para ser A FAVOR? Não! Sigo achando que tem muita coisa melhor para se produzir para as mídias, mas, reflito cada vez mais sobre aceitar que não sou o centro do universo, nem a última bolacha do pacote, que “há gosto pra tudo”, e que sou apenas mais uma. Se quiser fazer a diferença, preciso estar envolvida. Analisar inevitavelmente, flexibilizar algumas vezes, e aprender sempre.

Quero saber continuar, parar e voltar atrás; mas nunca estagnar.



segunda-feira, dezembro 07, 2020

COVID-19: UMA GUERRA INVISÍVEL AOS OLHOS


 

Estamos praticamente há um ano imersos numa realidade insegura, desconfortável e trágica - a pandemia do COVID19.

Como sempre, quero deixar aqui registrado que não sou médica ou especialista no assunto,  jornalista, não tenho informações privilegiadas a respeito de nada. Minha reflexão e meu modo de analisar a situação é de uma cidadã como qualquer outra.

Uma coisa é clara: a pandemia está aí, pessoas morreram e seguem morrendo; muitas ainda internadas, outras foram acometidas e contaminaram seus familiares de grupo de risco. Alguns testaram positivo, mas seguem assintomáticos, muitos não conseguiram sequer testar, e um monte de gente segue distribuindo vírus pelo mundo.Um vírus que tem características similares a outros, mas que também tem peculiaridades biológicas desconhecidas.

Bom, não há dúvida de que precisamos de isolamento, distanciamento e outros protocolos já devidamente implementados . Mas, ainda assim, enfrentamos o velho conhecido padrão da ignorância humana - aqui em sentido latu senso, ou seja, aqueles que ignoram porque desconhecem a dimensão e idiossincrasias da doença e do contágio, e os que são imbecis mesmo, porque escolhem não dar a atenção devida a algo tão sério.

Sim, eu sei que o cenário econômico pode tornar-se insustentável,  que as pessoas precisam pelo menos comer, dormir e sobreviver. Mas quero dizer que não acredito que seja  o comportamento de quem precisa comer que está distribuindo livre e faceiramente o vírus por aí. Não são  os trabalhadores que se sacrificam todos os dias (na inevitável labuta do que “não pode parar”) os únicos responsáveis e que deveriam se isolar. Obviamente existe a possibilidade de que sim muitos ainda estejam transmitindo e sendo infectados, mas a grande maioria deles não ignora os protocolos, pois são monitorados por seus empregadores, e não costumam ser poupados na hora de uma advertência, ou penalização pior - caso sejam flagrados ou denunciados.

O isolamento implica em ônus pesados, mas, nesse caso, implica em um bônus inestimável - vidas!

Crises, angústias, crianças irritadas e muitos outros sintomas frutos desse momento tão delicado são inevitáveis, e exigem muito da gente sim, exigem equilíbrio, responsabilidade, empatia. Mas vocês já pararam pra pensar se estivéssemos em guerra? E será que não poderíamos considerar que estamos?

Sabe aqueles filmes ambientados na época das Guerras que você gostou de assistir? Volta lá e assiste de novo, com um novo olhar, prestando atenção nos detalhes sócio comportamentais.

Geralmente nesses filmes, e nas guerras de embate físico, o inimigo tem rosto, tem arma e caráter -  mau caráter, mas ele tem. Perceba que nas guerras não se lida com meros protocolos apenas, mas com ordens, com medo, com sangue. As pessoas obedecem para garantir a vida. Geralmente existe um toque de recolher; uma proibição, que pode custar sacrifícios horríveis, e que causarão os mesmos (ou piores) sintomas de que falamos - depressão, angústias, anos escolares interrompidos, etc.

No caso de uma pandemia, estamos em uma guerra de perigos diversos, velados, porque não é só o vírus que é perigoso, as pessoas são perigosas, porque são egoístas quando deveriam sacrificar seu churrasquinho no final de semana, sua saída na  nigh, sua compra de supérfluos nos shoppings, e por aí vai.

Essa flexibilização que as pessoas estão tendo permissão para fazer , numa guerra, elas correriam risco de serem  alvos imediatos, de serem visivelmente atingidas, e, por isso, talvez, temessem de verdade. Como se diz: o que os olhos não veem o coração não sente… A invisibilidade do vírus está contribuindo para uma falsa impressão de segurança. E mais: As pessoas assimilaram a máscara, o álcool em gel e o lavar as mãos em suas  rotinas, mas o distanciamento e isolamento, podem esquecer! .Tenho a impressão que as pessoas acreditam que a máscara tem superpoder. A tradicional falta de educação em ceder a vez em espaços pequenos segue valendo.

Mas em tempo de guerra, a gente se refaz. O pós guerra sempre foi tempo de transformação. Econômica, social, pessoal. Basta revisitar a história.

Eu acho sim que este é um momento para ressignificar coisas, pessoas e valores; conhecer e peneirar necessidades e relacionamentos. Mesmo que lá na frente o psicopata social ressurja, ainda assim, mudanças significativas acontecerão.

Hoje, a gente olha para o Holocausto com horror, mas ouso lhes dizer que muitos de nós, se estivéssemos imersos naquela vibe de psiopatia social da época, talvez considerássemos muito justo denunciar um vizinho que protegia um judeu para tornar-se responsável pela morte de uma pessoa, sem culpa, e ainda vaidoso de sua ação de cidadania. Seguimos os mesmos, em momentos diferentes, de guerras diferentes também.

Para que vocês reflitam junto comigo, quero usar aqui uma frase da contracapa de uma das edições do livro A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS.:

Quando a morte resolve contar uma história, vc tem que parar pra ler.”

Será que a morte não estaria nos contando uma história?

Já são mais de 1 milhão e meio de mortos no mundo , até este momento em que estou escrevendo,.

A gente tem que parar .

quarta-feira, setembro 16, 2020

Estou Cansada de Tanta Hipocrisia Religiosa (TEXTÃO)


Para situar vocês, leitores, devo dizer que tenho berço cristão, evangélico. Mas já adianto que na  minha época ser "crente" não era modismo, e não tinha visibilidade em mídias. 

Vivi minha infância, adolescência e parte da juventude num ambiente religioso, e boa  parte desta época, estive submetida a doutrinas comportamentais rígidas, que me constrangiam, e tornavam meu  temperamento extrovertido e questionador um problema. Para mim, sempre foi muito difícil seguir algo que não  entendesse; por isso mesmo, comecei ler e estudar a bíblia bem cedo, ainda na adolescência.  Aproveitei que a igreja incentivava a atividade, e me dediquei com afinco. As dúvidas eram  milhares, e os encantamentos idem. 

Pra mim, a noção de um Deus nunca foi questionável do ponto  de vista de sua existência, isso sempre foi muito tranquilo, e segue sendo até hoje. Mas os cenários, a cultura, as simbologias, as personagens, a variedade de  interpretações, etc, isso era questionável, e esses questionamentos me angustiavam  profundamente, principalmente pelo fato do tema me ser tão caro, por eu ter uma vontade  sincera e intensa de oferecer o que havia de mais genuíno em mim, sentir que meu  coração ardia pelas questões espirituais, me emocionar, e não me  sentir parte, não me identificar como gostaria.

Eu não sei dizer precisamente em que momento a igreja evangélica mudou. Ou melhor:  A igreja não mudou. Acho que lentamente algumas instituições e líderes foram se popularizando, flexibilizando suas  doutrinas rígidas, outros foram aderindo à moda, e  foi ficando fácil  pertencer. Eu não acompanhei de perto esse processo “evolutivo”, pois, num dado momento, antes  disso, eu já não estava mais conectada como membro ativo daquela comunidade de fé.

Muita coisa aconteceu na minha vida pessoal: Faculdade, um casamento precoce (com o primeiro e único namorado) se desfez, descobertas de traições de vários tipos, mudanças radicais de postura, e uma nova busca  por entendimento de vida e noção das coisas. Lá estava eu. Aproveitei que a terra estava toda  remexida debaixo dos meus pés, e fechei um “pacote” com Papai do Céu: Eu não o largaria por  nada nesse mundo, mas eu queria poder ser quem eu realmente era. Transparente, com dúvidas  e certezas (poucas), disposta a novos aprendizados, conhecer e se dar a conhecer, e chegar o  mais próximo que pudesse da Sua essência. Nosso pacote considerou meus erros e o seu perdão,  seus desígnios e minhas muitas dificuldades de entender alguns deles. Mas prosseguimos,  sempre juntos. E, olha… Ele nunca me deixou… (esta é a parte em que eu choro!) 

O pacote segue vigente, e continuo meu aprendizado diário. 

Voltando à Bíblia.

Desde a primeira vez que me propus a estudar, até os dias atuais, minha leitura nunca  foi única, nem isolada. E isso sempre me fez muito bem. Eu fui mudando, amadurecendo, descobrindo novos estudos das literaturas e das teorias de mundo, sociedade, raça  humana; lendo e interagindo com outras propostas reflexivas, e sempre incorporando um novo  olhar sobre o panorama histórico-cultural da Bíblia. Nada, neste meu exercício de  conhecimento, me roubou a fé, nem diminuiu Deus, muito pelo contrário. 

Agora vemos apenas um reflexo obscuro, como num espelho; mas, então, veremos face a face.  Agora, conheço em parte, então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou  conhecido.” (Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios, cap 13, vs 12)  Desde que entendi este trecho, percebi que minhas incertezas seriam frequentes.

A Bíblia é, sem dúvida, uma obra fascinante, fruto de muita dedicação e trabalho minucioso de especialistas, e traz até nós uma história preciosa e poderosa da revelação de Deus: o AMOR, neste caso, feita na figura de Jesus Cristo.

Sei bem que são poucos os humanamente privilegiados, com acesso à leitura, ao estudo, e  conhecimento mais profundo da Bíblia como literatura. E, obviamente, não amarro esta  condição à fé de ninguém, e nem à ação divina. Deus vai muito além da nossa intelectualidade.  

Aqui, eu talvez consiga conectar meu raciocínio às recentes ocorrências envolvendo  evangélicos famosos, como, por exemplo, a Ana Paula Valadão. 

Dentre os poucos privilegiados, eu arriscaria dizer que Ana Paula Valadão é uma pessoa com o excelente acesso à informação, estudo e conhecimento de modo geral. Então, não me  sinto expondo fragilidade de ninguém.

Quero começar dizendo que não a recrimino pelo  entendimento de fé que adquiriu, muito menos por suas experiências pessoais com esta fé.  Olhando de longe sua caminhada, vejo conquistas, e também  identifico avanços significativos no uso de recursos - didáticos e de infraestrutura - para fazer sua  missão evangelística alcançar e transformar vidas. Os projetos  primários do Diante do Trono, os investimentos, as oportunidades de emprego e voluntariado,  e por aí vai… Na minha opinião, isso é muito positivo. Só não consigo associar esta gama de  conhecimento e recursos com tanto engessamento cognitivo e  falta de sabedoria na manifestação  do amor do Cristo.  A conta não fecha. Pergunto-me se ela  perdeu a mão em algum momento, se preferiu não transcender em conhecimento para investir num império “business-Gospel”, ou  se é uma questão de limitação mesmo. Na minha cabeça, parece um desperdício ( porque escolhi não considerar má fé). 

Seus posicionamentos recentes me fazem pensar o seguinte: 

a) Falta um mínimo de empatia!  

É mais ou menos como estar diante de uma pessoa com câncer terminal, sorrir, e dizer: “Olha,  eu vim aqui dizer que Jesus te ama, mas tenho que te lembrar que o salário do pecado é a morte,  portanto, muito provavelmente, isso tudo que está te acontecendo tem a ver com coisas erradas  que você fez”; 

b) É uma prática religiosa que escolhe pecados

Evita-se jogar luz em questões culturais relacionadas à evidente promiscuidade dos reis com suas muitas  concubinas, em prováveis relacionamentos incestuosos pós criação do mundo, em crimes de guerra em nome de Deus, no sacrifício das doutrinas de restrições  alimentares; e até flexibiliza-se o divórcio (antes tão maldito, mas que já foi contemporizado), mas sustenta-se que existe uma operação  diabólica na homossexualidade, ou seja, legisla-se em nome de seus próprios preconceitos e dificuldade de entendimento, pois, a  grande verdade é que a grande maioria de nós desconhece totalmente os conflitos íntimos de alguém que vive esta crise de identidade;

c) Desperdiça-se  a potencialidade, transcendência e magnitude de Deus Coloca Deus na  caixinha do seu próprio entendimento, e navega por um mar de águas paradas, onde nada muda nunca, nem a maré;

d) Não se contextualiza a mensagem do Evangelho

A personagem de  Jesus Cristo, sua mensagem, sua experiência humana, a proporção de sua  interferência na história, tudo mantém-se arraigado unicamente a leis e profecias do Antigo Testamento. Isso é desprezar a história e sua continuidade,  as circunstâncias, as épocas, e repetir uma noção de fé estática no tempo.  Qualquer um que resume um compêndio bíblico num livro de prática religiosa  única e com verdades absolutas  imutáveis não está sensível ao sentido de vida e ao tamanho de Deus.

Quero deixar aqui registrado que não estou associando o entendimento bíblico filosófico à fé de  ninguém. Pra mim, são coisas que não precisam estar necessariamente atreladas. Conheço  pessoas humildes, que nunca tiveram oportunidade sequer de serem alfabetizadas, que vivem  uma fé gigante, e que são sensíveis e usadas por Deus; muitas seguem suas restrições doutrinárias, e o fazem de  forma genuína. Seria crueldade minha julgá-las, e obviamente um Deus que é amor em essência enxerga isso melhor que eu.

A questão que trago nos meus comentários tem a ver com a manipulação do conteúdo bíblico  de modo insensato e até leviano. Por trás de aparência de santidade, há atitude presunçosa e  ambição de celebridade. E, no alastramento desses perfis, tudo vai se confundindo, e a essência  vai se perdendo. 

Sobre a Ana Paula (e com ela muitos outros), até um tempo atrás, eu só “lamentava”, mas,  ultimamente, tenho me incomodado bastante. Não que eu já tenha compreendido toda  a inteireza bíblica, nem que tenha todas as respostas sobre vida espiritual, mas a minha fé  se fundamenta numa experiência transcendente com um Deus que é essencialmente fonte de vida e amor, e Ele não cabe  inteiro em uma religião. Eu o reconheço quando o “sinto", é como se dentro em mim  algo o identificasse (tipo o Espírito Santo, sabe? ), e me ajudasse a discernir a linhagem espiritual diante de mim. Não quero parecer pretensiosa falando assim, mas essa foi uma descoberta empírica  em minha vida, e cansei de negligenciá-la, enquanto tantos absurdos são falados e feitos por aí em nome de Deus, sem qualquer pudor. 

E, neste sentir, devo dizer que:

Não ouço Deus na voz de gente que fala sobre dores que não são suas com  autoridade de quem leiloa o céu. Não sinto Deus em quem não chora com os que choram, gente que se importa e privilegia credo, cor, gênero, orientação, status; e também não vejo Deus em quem mistura e compromete fé com “politicagens”, e usa a religião em benefício próprio - alguns até para camuflar seus delitos e perversidades. Gente que grita textos bíblicos como jargões de guerra, desprezando a beleza e o valor de sua simbologia.

A voz de Deus é como uma brisa suave, que sopra sobre todos, e que se encarnou na figura de Jesus para revelar sua essência de amor, para que todos os sedentos e famintos pudessem ser saciados, e colocou em cada um de nós o seu Espírito, para que pudéssemos ser também sua  voz, socorro, alimento, aconchego; pois nele somos um, parte do mesmo TODO, que é fonte de vida,  paz, justiça e amor.

Lamento e me incomodo muito com Anas, Flordelises, Macedos, Malafaias (a lista é enorme), mas também me incomodo com os ordinários desconhecidos do dia a dia, que preferem o comodismo do seu silêncio do que o confronto das pequenas lutas diárias por um discurso mais transparente, para não comprometer suas mordomias privilegiadas, nem as riquezas mal distribuidas no mundo, inclusive em nome de uma teologia de prosperidade criada pra sua vaidade! 

Sei, na minha pele, que muitos se calam sim por comodidade e oportunismo. Como citei no início do texto,  eu questionava e buscava entender  coisas simples que, hoje em dia, depois de toda a customização da fé, a galera evangélica usufrui  na boa, e que, na época, eu não tive um eco sequer.  Aí, você pode me dizer: “Que bom que pelo menos mudou!”, eu digo que não celebro coisas conquistadas por modismos; eu celebro vitórias de esforços dignos, lógicos e devidamente assimilados.

Minha fé não é inabalável porque não muda, ela muda sim, mas não se desfaz; se ressignifica na renovação do meu entendimento, conforme vou vivendo, experimentando novos desafios e amadurecendo. 

É mais ou menos isso que eu esperaria de uma mulher culta, líder religiosa, que sabe inclusive distinguir uma bota Piton de outra qualquer - que sua visão de fé e espiritualidade acompanhasse o restante do seu desenvolvimento e investimento.

Desculpem o textão de desabafo, mas é inominável gente que para no tempo só para o que lhe convém, e segue fazendo discípulos, e machucando pessoas.


quinta-feira, setembro 10, 2020

Sobre Falar e Escrever Errado - Meu Preconceito Linguístico


Já fui remunerada para ensinar as pessoas sobre escrever corretamente, e ainda vejo valor e uso apropriado para isso. Mas já há algum tempo venho me sensibilizando com os “falares” do povo, e refletindo quão “classe dominante” esta prática pode parecer.

Registrar graficamente correto uma expressão é uma cobrança quase cruel, e rouba do falante o tom e o valor do tão na moda “lugar de fala”.

Somos prepotentes com a linguagem que adquirimos por sorte ou consequência social, acadêmica, de privilégio, ou coisa semelhante.

Esquecemos (ou não sabemos) que até chegar a ser estabelecido como correto, o uso das palavras nasceu, viajou e morou em muitas bocas, tribos, e classes; e só então, ao se tornar parte legítima de um grupo linguístico expressivo, essas palavras foram incorporadas e registradas em dicionários, e corrigidas pelos falantes “cultos”.

Faz tempo que parei de criticar quem escreve errado. Entendi que o fluir do pensamento é o que mais importa, e que isso é um direito natural do ser: expressar-se; e só por isso chegamos às artes, às literaturas, e a língua institucionalizada como culta.

As redes sociais tornaram as pessoas potenciais blogueiras da noite pro dia. Cada um tem lá o seu momento celebridade nas fotos do seu perfil, em suas receitas, e em seus “dizeres”. Eu mesma sou uma dessas pessoas. Acontece que a internet é um recurso traiçoeiro, porque nos passa a falsa impressão de que temos o mundo nas telas e na ponta dos dedos, mas faz com que nos sintamos falsamente protegidos por não estarmos presencialmente expostos, e alimenta nossa coragem voraz e nossa covardia inconsciente.

No meio de tudo isso, surge tudo que temos visto escandalizados nos últimos tempos.

Mas acontece que, curiosamente, em meio a tanta vergonha alheia, existe uma pequena chama de coisas interessantes, de conteúdo, que muito provavelmente uma editora não publicaria, mas que encontra neste espaço a sua oportunidade de compartilhar, ecoar e verdadeiramente abençoar a muitos.

Por exemplo: alguns ilustres desconhecidos têm curtido minhas postagens no Instagram, e eu, por curiosidade, fatalmente, vou dar uma sondada no perfil deles. Como descobri coisas legais!

São pessoas que seguem hashtags (olha só aqui o neologismo registrado sei lá como!) que eu coincidentemente coloquei nas postagens, e se interessam por coisas que eu também me interesso. Perfeito. Faz sentido.  Mas, para minha surpresa, encontrei tanto conteúdo e sentimentos bonitos e válidos em textos “mal escritos”. Opa! Não! Digamos, textos “escritos fora do padrão da norma culta da língua portuguesa”. Isso é justo? Não. Não é justo.

Daí vocês me dirão: mas um político com cargo de Ministro da educação escrever errado? Minha gente, convenhamos: oxalá ele só escrevesse errado!!!

Conheço efeitos contrários aos montes por aí. Gente que articula um discurso eloquente e de palavras difíceis, mas que carrega uma polidez diabólica, e que usa a ferramenta linguística a favor de seu despotismo, de seus crimes e seduções. Isso também não é justo!

Estou num momento de rever muitas coisas, dentre elas, inclusive nossos preconceitos relacionados ao aprendizado normativo que muitos tivemos, e o mesmo em relação à enormidade de conteúdo humano perdida por este mundo afora debaixo de falta de recursos de duplo sentido:  luz, voz, linguagem, atenção; e todos os demais já socialmente conhecidos: acesso, ensino, estrutura, saúde, etc.

No momento, não consigo ajudar diretamente essas pessoas, mas vou começar não julgando os falares e as grafias. É o mínimo. Quem sabe pode ser transformador?!


domingo, junho 07, 2020

100-OR


São tantos os conceitos que vejo sendo proclamados em alta voz, e, dentro em mim, arde uma certeza diferente,  pouco convencional.
Olho pra isso e me ponho a pensar naqueles que nos antecederam. Quanto legado precioso de gente que "sangrou demais", quanta herança de lutas duras, que acatamos por verdades sólidas, e que eram só pensamentos fluidos de almas angustiadas.
Imagino que era uma angústia de saber-se finito, mas com um sentimento de misterioso pertencimento, que, em meio a sua causa, trazia paz e coragem para a luta, e força para que defendessem entendimentos e valores que os moviam e que, tendo sido conquistados, hoje nos beneficiam.
Às vezes, tenho a sensação de que posso seguir seus exemplos, e pagar o preço de também "sangrar pra cachorro" para que "eu fale e não as minhas cicatrizes", mas sinto um incômodo aflitivo por não me conformar com o conforto da apatia dos que se dizem "do bem" e toleram o absurdo escancarado do mal todos os dias, em todas as telas.
Performance de gente que concebeu uma ideia, e sentou-se sobre um conceito estrutural e definitivo de tempo onde passado presente e futuro são congelados, onde profecias são manipuladas e o Evangelho não é interpretado para renovação do nosso entendimento, pois as vidas são julgadas a partir de suas posses, da sua cor de pele, e de seus conflitos mais íntimos e humanamente inatingíveis - como orientação e identificação de gênero - para estes (principalmente), a transformação esperada mora no legalismo da aparência do bem conceitual, e acabam escondendo monstros, feridas e mentiras. 
No ditado popular: "Por fora bela viola; por dentro, pão bolorento", nas palavras de Jesus... "sepulcros caiados", o que é lamentável. Uma assombrosa e factível realidade.

segunda-feira, maio 18, 2020

A Resiliência Diária diante da Esfinge



O ser humano, por mais que se esforce para “ser” humano, diante de ameaças (em suas mais variadas dimensões), acaba sabotado por sua face animal. De repente, o bicho homem se revela  em ferocidade, na sutileza da emboscada,  na busca por um bando, na hibernação temporária para esperar o motim...
Por isso, lidar com gente requer destreza, e, em determinadas situações, uma noção adaptada de sobrevivência na selva.
Isso não é poético, nem motivacional, mas é intuitivo e instrutivo. Quase que uma dica de “sabedoria” para lidar com as esfinges(*) no dia a dia.


(*) A esfinge era um monstro alado com corpo de mulher e leão que afligia a cidade de Tebas. Primeiramente apresentava aos homens o seguinte enigma: “Que animal anda pela manhã sobre quatro patas, a tarde sobre duas e a noite sobre três?” como nenhum dos homens conseguiu decifrar tal enigma, a esfinge os devorava.

terça-feira, abril 28, 2020

O Absurdo da Fé



Tertuliano (um teólogo que viveu entre os anos de 160-230) argumentou que a maior verdade do Cristianismo era a sua absurdidade: Creo quia absurdum est ("Creio porque é absurdo."). Também acho. Se não fosse absurdo, não haveria necessidade de fé, bastava entender.
A quem me pergunta, por curiosidade (ou porque busca para si uma explicação) sobre minha fé e seus fundamentos em minha vida, respondo: 
Creio porque é um absurdo, e esta experiência me nutriu até aqui, e me sustenta em todo tempo. Há dias em que nem percebo que isto me sustenta, em outros, busco o tempo todo esta certeza para conseguir me sustentar.
É assim. Simples de viver e complicado de explicar.

Só não sei viver sem este absurdo!

Envelhecer é diferente de apodrecer

Qual seria a sua idade se você não soubesse quantos anos você tem? (Confúcio) Eu, com certeza, seria velha, em qualquer momento. Devo ter na...