sexta-feira, janeiro 27, 2023

Envelhecer é diferente de apodrecer


Qual seria a sua idade se você não soubesse quantos anos você tem?
(Confúcio)

Eu, com certeza, seria velha, em qualquer momento. Devo ter nascido velha; assim, meio que uma versão de alma de Benjamin Button.

Não digo isso com orgulho, porque sei que é importante usufruir de todas as estações, seus ventos e temperaturas, mas eu tenho a sensação que pulei algumas etapas, e sinto isso quando percebo que não tenho saudade da minha infância. São poucas memórias de criança que me trazem uma sensação boa, a maioria me causa nostalgia pura. Mario Sergio Cortella diz que nostalgia é revisitar um lugar não pertencendo mais a ele. Talvez seja isso, não sei.

Pulando etapas ou não, meu coração se enche de gratidão quando percebo que sigo envelhecendo. Olhem só que privilégio! Envelhecer!

Quero aproveitar para compartilhar aqui com vocês um trecho belíssimo que acabei de descobrir o autor.
Parêntesis: Sim, nessa realidade digital, eu procuro confirmar os créditos das citações, e ainda assim, prefiro me referir a elas como palavras "atribuídas" a fulano ou ciclano, porque mesmo clássicos, como Fernando Pessoa e Clarice Lispector, não passaram incólumes a informações do tipo "fake".

O trecho a seguir, portanto, consta como sendo de autoria de um professor de literatura do Colégio Objetivo, em São Paulo, até seu último dia de vida, em 2008 - Professor Fernando Teixeira de Andrade.

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."

Fernando Teixeira de Andrade

Você sabe o que é viver à margem de si mesmo? É não ir além do nosso umbigo.

É só entender e querer saber da vida o que nos diz respeito, o que nos afeta em nosso egoísmo, o que interfere na nossa programação, e o que nossos olhos alcançam a partir de uma única perspectiva - a nossa.

É a tal síndrome da música da Gabriela: eu nasci assim, eu cresci assim, e sou mesmo assim, vou ser sempre assim... Gabriela.... sempre Gabriela..." (*)

Mas o tempo da maturidade é esse tempo que o professor Fernando Teixeira diz, o tempo da Travessia.... Tempo de atravessar, transpor os limites da mesmice de nós mesmos.

Os óculos da maturidade são lupas de vida.

A proporção que as limitações de nossa visão clínica nos obrigam a nos determos mais nos detalhes das paisagens, aceitar a idade é concordar em usar óculos, é render-se à adaptação de um novo jeito de ver, de enxergar as coisas, um jeito melhor, porque não tem como enxergar o mundo e a si mesmo da mesma forma que fazíamos na juventude.

Estar maduro é ter um novo olhar sobre tudo, um olhar de investimento de tempo e reflexão sobre si, sobre sua história, suas colheitas, suas estiagens e inundações; e, com tantos vistos no passaporte do tempo, poder aprender com as diferentes perspectivas.


Ah, sim, a angústia é inevitável.
Só não vai se angustiar quem faz tudo no automático, quem não se incomoda com a perda de visão, quem prefere ignorar (ou de fato ignora) as referências. Alguém fala sobre o que está escrito na placa lá longe, você já não consegue mais ler, mas não se incomoda. Eu quero sim saber o que está escrito! Se eu não puder ler, quero ouvir alguém me dizer, e ser parte ativa dos momentos! Viver é estar atento!

Enquanto os mais novos ouvem falar de coisas que aconteceram no passado, a gente viveu essas coisas! A gente carrega a história nos nossos olhos, memórias e experiências, e, mesmo os maiores negacionistas não poderão tirar de nós essa vivência, muitas vezes até sofrida e dolorosa.

A gente olha para trás e lembra que nada do que foi será do jeito que já foi um dia.... E que isso é a vida. Ser intransigente, não aceitar mudanças, não estar sensível ao momento presente e refletir sobre inovações e transformações que ele traz, isso não é envelhecer, ou amadurecer, é parar no tempo, é apodrecer, sem servir a ninguém com seu sabor e savoir-faire.

A longevidade é poderosa, e sua angustia pode ter poder de cura. As muitas angústias que assombram o envelhecer, são as mesmas que podem fertilizar um renascimento pessoal, ainda que sem aparente glamour.

A angustia existe porque estamos humanos, e quando somos invadidos pela intensidade da vida, a lupa da maturidade nos revela que o tempo é dono de si, e não segue a nossa agenda; que a colheita é fatal, e que Deus vai muito além dos nossos conceitos; acreditar nele não nos blinda, mas nos equipa com uma visão superpoderosa da jornada, e nos livra de viver à margem de nós mesmos.

Se alguém afirmar: "Eu amo a Deus", mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê.

Bíblia Sagrada, 1 João 4:20

(*) Trecho da Letra de Modinha Para Gabriela
Compositores: Dorival Caymmi
 
 


terça-feira, janeiro 03, 2023

O SILÊNCIO DOS BONS E A CONTAMINAÇÃO DO MAL


"O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons"
(Martin Luther King)

Martin Luther King foi pastor, ativista e líder do movimento dos direitos civis nos EUA.
King recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1964 por seu engajamento no combate ao Racismo Norte Americano.
Hoje, o legado de Martin Luther King é inestimável não só para americanos, como para todo o mundo. Só que não foi sempre assim.

Durante o tempo em que militava e defendia sua causa, o FBI - que é o Departamento de Investigação Federal da Polícia dos EUA, investigou King por supostas coligações comunistas devido ao seu posicionamento político em favor dos pobres, e há registros inclusive de ameaças anônimas que ele recebia. Até que em abril de 1968, King foi assassinado por um homem de bem, que o considerava traidor, porque movia as pessoas em suas marchas para parar e enfraquecer o país política e economicamente.

O mundo gira, e voltamos frequentemente a lugares parecidos, e o pior: sem ter aprendido com as experiências de sofrimento que vivemos e presenciamos.

Já poderíamos ter aprendido que mal e bem não têm nome, não têm religião, não têm cor, roupa, ou gênero; mal e bem são como sementes, e sua fecundação vai depender da dispersão, do ambiente, de condições que favoreçam seu germinar e seu desenvolvimento, até que talvez possam ser reconhecidos por seus frutos.

Se nos calarmos diante dos frutos, da falta de lucidez, do fanatismo, da discriminação, da desigualdade social e da intimidação pelo medo e pela violência, estaremos favorecendo as condições para o mal se alastrar e se fortalecer. 

O silêncio dos bons não se revela exclusivamente em ações pontuais como, por exemplo, estar presente em passeatas, mas fundamentalmente no omitir-se e até no dividir forças quando o mal é iminente.

A política, por exemplo, deve ter sim representatividade, e os valores democráticos precisam ser praticados, mas o caminho da espiritualidade é individual no entendimento, e coletivo no amor, na comunhão e no respeito. Não existe supremacia religiosa capaz de governar em nome de Deus. Deus não tem partido, e nenhum partido legitima Deus. Deus é insondável.


sábado, abril 30, 2022

Política não se Discute?

 

Política, futebol e religião são assuntos polêmicos, e muita gente diz que “não se discute”.

Para início de conversa, nasci filha caçula, num lar cristão evangélico. Segundo detalhe: minha mãe foi funcionária pública, diretamente alocada em repartições de gestões governistas da região onde morávamos.  Logo, inevitavelmente, tive uma infância rodeada de políticos e de religião. Contudo, por mais que fosse uma relação de acordos e interesses subliminares sempre presentes, na dimensão visível, aparente, as esferas se auto geravam em suas respectivas práticas e costumes. Talvez eu pudesse dizer que sempre se beneficiaram, mas não esfregavam sua prostituição no nariz do povo, como quem exibe promiscuidade na rua.

Assim, desde que me entendo conscientemente como indivíduo, o modus operandis da política e da religião me avizinhava, e comprometia (e muito) meu modelo de vida na época.

Nada mais orgânico do que a intensidade da adolescência e da juventude potencializar essas influências, numa extremidade ou em outra, ou seja, como antagonista ou como partidária.

Ah! Esqueci de mencionar que meu pai sempre foi um aspirante a político frustrado. Ele tinha potencial, e teria tido oportunidade, não fosse a ditadura matriarcal familiar em que vivemos. Embora inserida no metiê, minha mãe nunca considerou apoiá-lo. Tinha lá os seus motivos e receios. Não vou entrar no mérito. Mas meu pai era estudioso, gostava demais de história, concluiu seus estudos já na fase adulta, e adorava uma oportunidade de mostrar que “entendia de política”.  Mesmo sem perceber, a caçulinha ia sendo contaminada pelas ideias, pelos discursos fervorosos, e, também - meio que por osmose - ia juntando os ingredientes do que era visto, ouvido e assistido.  Vale registrar a pouca coerência dos fatos.

Mas, e “quico”? O que é que eu tenho a ver com isso?

Olhando de frente para trás, daqui onde estou, acho que tenho uma leve noção de como esse histórico me afetou.

Viver num ambiente político religioso desde cedo, com o meu perfil observador e analítico, mesmo sem PNL (Programação Neurolingística), me habilitou para identificar alguns estereótipos, e atestar alguns princípios e convicções básicos. Exemplo: não espere coerência e integridade de políticos – sejam eles religiosos ou não.

Outra percepção que tenho é que o estilo comunicativo, sedento de conhecimento, e frustrado com a política que caracterizava meu pai, o colocava num posicionamento esquerdista, e por isso mesmo sempre munido de alternativas e contrapontos interessantes a respeito do momento político. E, como não existia rede social, era à mesa, ou no sofá, diante da TV, que as discussões aconteciam.

Por conta desses momentos de discussões, e por conta de algum dispositivo pessoal (imagino que isso também influencia), tornei-me uma fiel militante do PDT na adolescência. Sabe de uma coisa? Eu era mesmo é Brizolista. Rsrsrsrsrs

Daí em diante, minha trajetória seguiu sempre na via alternativa antigovernista. O que era praticamente inevitável para a época, visto que vivi minha adolescência durante o governo militar, e minha juventude - passando inclusive pelos meus tempos de faculdade – foi todo envolvido pelo movimento DIRETAS JÁ. 

Qual o saldo disso hoje para mim?

Tive experiências boas e ruins em todos os cenários. As boas não foram de natureza estritamente relacionada aos ambientes, portanto não foram suficientes, ou eficientes, para me fazer seguir. O que eu quero dizer é que o que eu vivi de bom na igreja e no ambiente de funcionalismo público eu trouxe comigo para uma outra dimensão de vida. O que me prenderia nesses sistemas é justamente o que deles não me representa.

Se eu estivesse escrevendo um livro, talvez coubesse relatar, caracterizar e analisar cada situação, mas este não é o meu foco. Estou apenas compartilhando uma reflexão em forma de panorama, com o objetivo de tentar fechar meu próprio raciocínio sobre os posicionamentos extremistas atuais, os aspectos não fundamentados que os identificam, e a rigidez dos celeiros da religião e do tradicionalismo que tem nos destruído. 

Futebol e religião, em tese, estão associados a questões intangíveis, que flertam com a paixão, com a irracionalidade, com sentimentos e experiências pessoais no âmbito inclusive de tradições e legados familiares de cunho emocional. Obviamente, sempre há espaço para considerações lógicas e congruentes, mas acaba sendo tolerável o extremismo, o  tal “não se discute”, em função da sensibilidade de sua nascente afetiva. 

Mas a política, ainda que igualmente polêmico - e controverso, e causticante - deveria ser mais que discutível, deveria ser conteúdo obrigatório na educação. Não para catequizar vertentes e posicionamentos, mas para semear conhecimento, ampliar a visão, alimentar o raciocínio, fundamentar a argumentação e encorajar uma discussão ética desde cedo. Mas sinceramente não sei se posso afirmar que isso é possível, considerando as peculiaridades do mundo digital, e da dissolução de sentido que tem feito derreter valores eternos e inegociáveis, e nos feito escorregar neles. 

Mas, voltando ao saldo, eu tenho hoje a seguinte opinião:

Política, em sua essência (embora totalmente perdida), não é time de futebol, e também não é uma religião; mas ela flerta sim com tradição, até com alguma paixão, e com muita experiência e conhecimento adquirido nos ambientes dessa experiência. Mas, acima de tudo, o assunto, em si, é feito pra ser discutido, refletido, considerado, e, se fizer sentido, também descartado; porém sem idolatrias, sem torcida organizada, sem celeiros, porque a política como conceito deveria ser uma ferramenta para promover mudanças e soluções em benefício dos povos,  cidades e nações. 

Entretanto, infeliz e paradoxalmente, “o político” segue sendo aquela figura que fatalmente será persuadido na sua ética frágil, que nos decepcionará, que se decepcionará, ou que se fartará do seu ego, e assumirá sua ganância e potencial demoníaco.

Na melhor das hipóteses, uma consciência política genuína incentivada nos ajudará no sentido de estarmos capacitados para exercer o papel cidadão de fiscalizar, reivindicar, se manifestar e votar sempre que possível para mudar o que não mostrar resultados; observando a história, o Curriculum Vitae, e a ética, mesmo frágil, mas que se revela justamente na história, no CV, e no discurso improvisado -  geralmente a boca fala do que o coração está cheio.

Decepções sempre virão.  Mas, como diz o ditado popular: “errar é humano, mas permanecer no erro... é burrice.

 Avante, pessoal! ;)

terça-feira, janeiro 04, 2022

Mundo Corporativo, Desperdício e Imbecilidade

 

Digo, sem medo de errar, que na mesma proporção em que muitos profissionais realmente qualificados e talentosos seguem em busca de uma oportunidade de trabalho em meio ao caos econômico vivido no país, empresas jogam dinheiro fora remunerando gente incompetente por meio de contratos diversos, simplesmente porque apostaram em indicações, informações cadastrais e experiência relacionada a vínculos empregatícios e funções anteriormente ocupadas.


Obviamente isso não é um padrão, mas é significativo o suficiente para impactar na qualidade do serviço e no desperdício com investimentos.

E mais: mesmo entre os atualmente “empregados”, tem gente mal gerenciada, frustrada, e acomodada na “segurança” financeira momentânea (o que é  até compreensível), e ainda tem os oportunistas de salários robustos que seguem ocupando a grade organizacional pendurados no fio de seus relacionamentos estratégico-interesseiros,  extorquindo tempo, informação e talento dos que fazem a coisa acontecer funcional e operacionalmente - que são os que menor impacto causam no budget de Headcount, por exemplo.

Sempre foi assim? Creio que sim. O que piora? A crise econômica, a janela virtual globalizada, e a valorização da cultura da imbecilidade.

Sigamos a processão.

quinta-feira, dezembro 02, 2021

Ordem dos Pastores Batistas de SP s/ Ed René Kivitz

 


A primeira vez que ouvi falar de Ed René Kivitz foi nos idos de 1993, eu tinha acabado de chegar em SP. Sua fama era de ousadia, contextualização das escrituras, pensamento à frente de seu tempo. Um herege. (risos) Mas, como, no Rio,  eu era "discípulo" de Caio Fabio, nada me perturbava.

Ao contrário: essa coragem de não seguir a fila, de sair da caixa, de ousar pensar, e dar ao cérebro o direito da potencialidade que lhe é devida me fascinava... Erros, acertos, vulnerabilidade, intensidade, tudo normal pra quem vive a angústia da peregrinação terrena.

Por meio de cristãos como eles, e também Ricardo Gondim, figuras ímpares e preciosas, fui resgatada de cavernas escuras, profundas e úmidas de aflições próprias do existir, e que haviam sido torturadas por dogmas, interesses, preconceitos e alienação da igreja na época.

 Ed, já deu, querido.

Convenhamos: isso era meio que inevitável. Faz parte do processo, da legitimidade da sua caminhada.
Mesmo nunca tendo sido uma versão genuína do projeto essencial do Reino, a igreja até já foi uma opção para o caminho da espiritualidade, contudo, chegou no ponto de mudança de estado. Agora ela congela ou evapora.

Você deve saber muito bem que pode ser e entregar dadivosamente tudo que Deus misericordiosamente lhe outorgou fora de mais essa "caixa".

Deus é contigo!


quarta-feira, outubro 13, 2021

A Voz do Sobrenatural


Ouvir Deus é como sentir um sussurro de amor, é como ser acariciado na alma pelo sobrenatural.

São muitas as ideias de alma, e, sinceramente, não tenho a pretensão de ter a melhor definição, é misterioso demais para minha insignificância humana (na perspectiva do divino, claro); mas quando "ouço Deus" (e eu sinto que ouço!), me parece um som de paz que vem de dentro.
Em meio a situações mais adversas, de angústia, conflitos, dúvidas, dor, enfim, quando tudo ao meu redor me desanima ("des-anima"), procuro buscar meu "ânimo" de volta na fonte que literalmente me "animou", que me encheu de vida.
Alma é um termo que deriva do latim anǐma, e refere-se ao princípio que dá movimento ao que é vivo, o que é animado ou o que faz mover.

Minha relação com a Bíblia, além de fonte histórica e literária, é de inspiração. Gosto de me alimentar das coisas bonitas que foram incorporadas à obra, porque creio que todo registro e produção da história da humanidade, sua relação com crenças e experiência espirituais serve de referência pra nossa caminhada terrena, pois, embora inseridos em épocas e cultura diferentes, no fundo, temos a mesma busca, a mesma sede, a mesma angústia: um elo perdido com o divino.
Digo isso para me valer dos versos de um profeta bíblico a quem foi atribuída muita coisa bonita no compêndio do Antigo Testamento: Jeremias.
"Buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração...." (29.13-14)
Palavras de consolo enviadas por ele (Jeremias) aos exilados na Babilônia, como mensagem recebida de Elohim (nome usado no original em hebraico referindo-se à natureza superlativa de Deus - Criador).

E é assim, dentro dessa perspectiva, que tenho buscado encontrar Deus, ouvir sua voz sobrenatural na trivialidade do dia a dia. O lugar onde mais intensamente me relaciono com sua voz é quando o busco no profundo de mim mesma e na relação de pertencimento com a natureza, com o universo, e na irmandade com o outro. É assim que consigo percebê-lo.

Deus é tudo em todos. Não existe caixinhas e definições que consigam contê-lo. 

quinta-feira, setembro 09, 2021

Fé, Religião e Política

 

Passei por muitos caminhos de reflexão nos últimos anos, e, boa parte deles, dentro de um ambiente religioso. Hoje, reconheço o que bem disse o poeta Antonio Machado em seu CANTARES: "Caminhante não há caminho, se faz caminho ao andar". O processo de elucidação, autoconhecimento ou espiritualidade acontece em nós enquanto vivemos, conforme nossas experiências, nossa predisposição de alma, nossa sede de pertencimento no cosmos, e nossa solicitude ao divino. E isso pode se dar dentro ou fora de uma religião.

O que tem acontecido no campo visível da podridão político-religiosa não tem nada a ver com a essência de uma fé genuína, da busca por conhecer e experimentar Deus.

Fé, religião e política é uma relação altamente prostituída, no pior sentido da palavra.

Mas isso não é de agora não, sempre foi assim. Aliás, de acordo com a história do Cristianismo, por exemplo, esse era o “grande sugador de energia” de Jesus. Seu tempo em forma de gente nesse plano foi para resgatar princípios e valores nas intenções e ações que nascem em nós, e nos instruir por inspiração e direcionamento do espírito que soprou sobre nós, pois aparentemente, nos perdemos na experiência humana. Nesse tempo, o que dele sabemos foi que viveu de forma pacífica, mas não passiva; que tinha eloquência para estar entre os doutores da lei, mas vivia entre pescadores; que andava com feridos, desprezados e marginalizados, que nunca usurpou poder ou glória para si, que usou as crianças como exemplo de pureza, e surpreendeu líderes religiosos, rompendo com tradições e hábitos que não priorizassem o amor.
A partir dessa sinopse, é absolutamente contraditória a linha de pensamento cristã-religiosa atual com a prática do Cristo a quem dizem seguir.

 

Igreja e Estado sempre tiveram um envolvimento inescrupuloso, interesseiro, e abusivo. A questão é que a variedade de “personas” no mercado religioso se multiplicou absurdamente, e isso pulverizou as teorias e promoveu uma produção em série de ídolos carnais esvaziados de valor. Por incrível que pareça, a impressão que eu tenho é que, no passado, Igreja e Estado tinham interesses mais evidentes na disputa pelo poder. Hoje, os estereótipos de fé trazem uma cortina de fumaça sobre as reais intenções. Fato é que isso não é novo. O que me frustra é a recorrência tão potencializada, em pleno Século XXI. Inacreditável que tenhamos chegado até aqui com tanto acesso à informação e conhecimento, e, ainda assim, haja espaço para propagação dessa “aura” do mal.

 

Deus é atemporal, eterno, insondável, transcendente, e inesgotável em ser. Ele não precisa do meu conceito a respeito dele para existir. Ele simplesmente é. Tentar decifrá-lo é quase exaustivo, não fossem os mistérios que nos colocam vulneráveis a experimentá-lo na dimensão genuína, pessoal e intransferível da fé de cada um de nós.
Portanto, é plenamente legítimo ter uma ideia de Deus. Mas o que vemos hoje não tem a ver com isso, o que vemos, e que se repete historicamente, tem a ver com um branding de fé, com logo, identidade visual, e público devidamente estabelecido; tem a ver com a comercialização de um conceito que deveria ser santo; tem a ver com a profanação do sagrado. Isso sim é um pecado*.

Certamente Deus recebe com amor nossa tentativa de decifrá-lo, seja como for, mas deve desprezar a ufania de quem torna isso um produto, com embalagem, branding e custo.

 

*  OBS: A palavra pecado deriva do latim ‘peccatum’, que remete a “tropeçar, dar um passo em falso; enganar-se”.


quarta-feira, julho 21, 2021

QUEM CONTA UM CONTO...

 


Já ouviram o provérbio: QUEM CONTA UM CONTO AUMENTA UM PONTO ?

Pois é.  Os ditados populares costumam carregar realidades bem interessantes em seu conteúdo rápido de informação.  

Cada contador de história possui um filtro. E esse filtro é inevitável, natural. Que filtro é esse?

Qualquer situação, mesmo a mais evidente, ao ser reportada, vai ter versões diferentes. Na melhor das hipóteses, vai variar a linguagem, o sotaque, o estilo – uns mais detalhados, outros mais assertivos. Isso se deve a um filtro natural das idiossincrasias pessoais.

Por exemplo: Quando a gente mostra a mesma imagem para pessoas diferentes, e pede para que descrevam o que estão vendo, por mais semelhantes entre si, teremos impressões e comentários diferentes.

Os filtros não necessariamente adulteram a história, eles costumam apenas revelar foco, preferências e tendências de cada um sobre fatos, imagens, sobre o outro, etc. O temperamento, por exemplo, costuma ser um filtro, influenciando o modo de assimilar situações, interpretá-las, e, consequentemente, traduzi-las na hora de relatar.

Um outro filtro importante sobre contar histórias é a memória e o lado que o narrador se encontra. Talvez este não seja um filtro 100% natural, automático, mas é condicional e relevante.

Vamos imaginar: Se, num determinado contexto – pode ser um jogo, um campeonato, um concurso ou mesmo uma luta pessoal, com um projeto, ou uma doença, enfim, seja o que for; se você sair dessa experiência como vencedor, a sua história vai ter um estilo, uma carga de energia e uma memória emocional sobre o que aconteceu diferente de quem porventura perder. A retórica de quem sofre e não vence tem um tom diferente, ainda que discreto, pois as sensações envolvidas são outras.

Mas onde eu quero chegar com esta reflexão?

Eu gostaria que vocês acompanhassem meu raciocínio sobre a necessidade de sermos flexíveis no entendimento da História, sim, com H maiúsculo. E quais histórias seriam?

A História da Criação e evolução do Mundo, a História do Brasil, a História da Religião, histórias que não são da Carochinha*, que são histórias importantes para nossa identidade e referência humana, social e pessoal, mas que, inevitavelmente, também sofreram o processo do “ponto aumentado”, aliás, dos pontos! Ponto dos temperamentos, das impressões pessoais, das interpretações, do lado (perdedores e vencedores contaram e contam muitas histórias), e por aí vai...

Vocês percebem quão relevante é compreendermos que não existem verdades absolutas no conhecimento que a gente adquire por meio de nossas heranças históricas, quaisquer que sejam elas?

Vejam quantas coisas envolvidas num simples processo de fazer uma história seguir adiante! É impossível termos consciência da possibilidade de tantos filtros, considerando todos os cenários, e, ainda assim, acharmos que o fato como nós ouvimos (ou aprendemos) nos foi passado em sua integralidade, que a versão que nós temos é a correta. É o velho e divertido “telefone sem fio que a gente vive na micro experiência social da brincadeira, projetado no âmbito histórico extraordinário.

A gente pode (e é “de bom tom”) ter opinião e conhecer as teorias sobre as coisas, mas isso não revela a inteireza dos fatos. Algumas teorias são opiniões relevantes de estudiosos, em suas respectivas áreas; e elas são muito importantes, agregam valor ao nosso processo de entendimento sobre variados assuntos, e devem ser ouvidas, consideradas e discutidas. Elas podem inclusive servir de norte, de direcionamento para escolhas e formação de uma opinião. Um estudioso numa determinada área ou tema geralmente é chamado de “Líder de Opinião”, justamente por ser natural essa relação de troca, inspiração e fonte de conhecimento e aprendizado no desenvolvimento humano.

Viver é como montar um enorme quebra-cabeça em grupo. Aos poucos, as coisas vão se encaixando, mas sempre estaremos diante das peças soltas. Mesmo para aqueles que julgam saber a solução da imagem final (porque viram na tampa da caixa), as peças ainda estão espalhadas, e a vida, como conceito e essência, não tem uma caixa exclusiva para cada ser vivente, ela é única como fonte, e somos todos parte de seu imensurável “todo”.

Posicionamentos extremistas, partidários e rígidos sobre experiências que não foram empiricamente nossas, situações que não vivemos – individual ou coletivamente – não revelam verdades, revelam uma predisposição de não querer continuar descobrindo as peças, de não se permitir aprender com o processo; isso é, de certa forma, o que a gente tem ouvido repetidamente nos últimos tempos: o famoso negacionismo.

Mas segue sendo de suma importância que histórias sejam contadas, e ouvidas. É assim que se constrói uma raça, uma sociedade, uma herança cultural, a nossa história.

 Por isso é tão importante ouvirmos versões diferentes, e não tomarmos nenhuma versão por nossa, exceto se for realmente algo muito pessoal, e, portanto, “nosso”, no sentido de vivido em nossa pele e alma. Sempre lembrando que o relato da experiência é autoral, e que a apuração dos nossos ouvidos para histórias - e para a História – é um indício de sabedoria. Considerar minhas verdades como incondicionais e soberanas é como desistir do jogo, é negar a fonte inesgotável de aprendizado que a vida coletiva nos oferece.

O ideal seria que, ao ouvir um conto, pudéssemos nos manter equilibrados sobre a atenção merecida, com a devida empatia (inclusive pelos prováveis filtros), e a consciência de que podemos estar diante de mais uma “pista” do enigma da vida – que pode ser usada ou descartada, conforme a sutileza ou a aberração dos pontos aumentados.

 

 


quinta-feira, julho 08, 2021

NEGACIONISMO - UM ESPELHO DISTORCIDO

 


Grandes tragédias que marcaram a humanidade foram fruto da ignorância de muitos a serviço  do negacionismo de alguns.
O negacionista é aquele que tem uma imagem distorcida de si, da sua história e de seus porões, e que projeta essa deformidade em tudo que faz. Se visitarmos os porões e baús empoeirados da história, vamos identificar condutas, omissões e barbáries tão familiares quanto um espelho. Para o negacionista, o que o espelho reflete não é a realidade.
Baús abertos aguçam memórias esquecidas, proporcionam novas interpretações, revitalizam nossa consciência, e remodelam nosso entendimento.

Conhecer nossas raízes como indivíduo, como povo, e como espécie é antídoto para desastres iminentes, e aprendizado para gerações futuras.  Na educação, nas Artes, nas ciências, e nos diálogos, existem portais capazes de nos levar ao encontro de nós mesmos. São espelhos para quem busca autoconhecimento e evolução. Por isso, para um déspota reinar, é imprescindível que o povo seja refém de seu formalismo distorcido, e não tenha conhecimento histórico, nem noção das possibilidades de um horizonte; ou seja, um povo sem educação é um prato cheio para ser devorado, sem piedade.

Os rastros dos acontecimentos históricos marcaram o passado, mas nossos passos seguem avante, pisando outros caminhos; então, quanto mais tivermos real noção dos erros cometidos, contados a partir de experiências legítimas,  sem saudosismo tolo, ou negacionismo intencional, mais habilitados estaremos para escrever uma nova história, evitar passos arriscados, passando o bastão para que o futuro assimile e prospere, com o devido discernimento e consciência renovada.

Autoconhecimento e empatia – a versão revisada do maior dos mandamentos: amar ao próximo como a si mesmo. Esta é a chave que abre as janelas democráticas do tempo; e olhar passado, presente e futuro com essa prerrogativa é mágico e transformador, porque ela nos coloca na perspectiva do outro, e valores como paz, justiça, respeito,  deixam de morar na propriedade do domínio da nossa conveniência, para se tornar um direito natural como a chuva, o sol, o vento, e o horizonte, este, sendo diverso, convida, encoraja, mas não se define, se renova, a partir do próximo ponto de visa, de um novo posicionamento, de uma nova condição, de um novo sentido.
Negar realidades, seja em que momento for, é interromper a cadeia de renovação da vida, seja por ordem natural, sobrenatural, ou mediada por uma ciência (no sentido de saberes). Um negacionista é um agente de morte, em suas mais variadas concepções,  pois todas se opõem à vida.


quinta-feira, junho 03, 2021

Manifestação 25M_Pandemia COVID19


 A convocação de manifestação contra o governo de Jair Bolsonaro em diversas cidades do país, no dia 29 de maio,  em meio a pandemia, me deixou muito apreensiva, mas, ao mesmo tempo, tenho que dizer que entendo a angústia desse grito engasgado .

Vejam vocês que situação delicada, e inevitável.

O que me deixa ainda mais angustiada não é só a aglomeração (embora tenha havido orientações explícitas dos organizadores a respeito da máscara, álcool e distanciamento, foi uma aglomeração); acontece que, além de estarmos quebrando um protocolo de comportamento, eu já antevia a manipulação de informações, os confrontos ideológicos, a “deixa” que gente cheia de ódio e sem disposição para argumentação de valor queria para tripudiar em cima de temas tão relevantes pelos quais temos lutado há pelo menos 3 anos.

Eu estou tão negativamente impactada pelos acontecimentos e pela postura de pessoas ao meu redor (longe e perto de mim), que já não acredito mais numa solução em curto ou médio prazo, e acho que a galera que foi para as ruas nessa manifestação está como eu: desesperada.

Olha, gente, é muito angustiante você reconhecer a legitimidade de um ato, no caso dessa manifestação, e sentir que a tiro vai sair pela culatra. Se não fosse a pandemia e meus riscos pessoais, eu estaria com certeza apoiando 100% o evento, porque de fato já passou da hora de algo ser feito a respeito de tudo que temos vivenciado como consequência da  péssima administração de crise no país, além da série de eventos criminosos que vem sendo propositadamente minimizados para blindar gente inescrupulosa, verdadeiros bandidos velados, escondidos atrás de uniformes sociais e religiosos. Isso é uma psicopatia.

Justamente por conta desse cenário que acabei de descrever é que me angustio, mas ainda acho que o tiro vai sair pela culatra.

Essa tem sido uma estratégia frequente desde o início - a campanha desse governo foi feita dessa forma, não há  muito o que ser feito. É aqui que eu me vejo frustrada, porque olho ao redor, ouço pessoas que poderiam estar fazendo diferença, e começo a pensar que não existe saída, gente.

Talvez por isso essas pessoas (as que estiveram no ato do dia 25) estejam colocando em risco o seu momento e de suas famílias,  para aliviar a garganta engasgada; e eu temo muito por todos que estiveram envolvidos na manifestação, mas, ao mesmo tempo, me sinto orgulhosa da iniciativa e da ira que os consome, porque sim, essa ira é um motor necessário para uma causa que tem a ver diretamente com a vida e seus valores mais legítimos.

Eu fiquei tão receosa a respeito do evento, que cheguei me manifestar  no perfil de um dos organizadores. Mas, depois, fiquei meditando: Qual seria, então, a minha melhor sugestão?  Seguir com o “rabo entre as pernas”, acuados, sendo dizimados diariamente, e esperando 2022 chegar sem qualquer garantia de que isso vai mudar?

Olhando para trás, desconheço mudanças significativas ocorridas na história que tenha sido desencadeada sem uma atitude radical. O equilíbrio é manutenção, pessoal. Equilíbrio é respiração, é disciplina, é ritmo. Aqui, não estamos mais falando de equilíbrio faz tempo! Não temos mais condições de estar equilibrados. Mudança e transformação de um estado ou de uma condição tem a ver com processo sim, mas, o virar da chave, o impulso, a decisão, nisso a gente precisa colocar força, coragem, ímpeto, é a hora de arriscar tudo, é pegar ou largar, e, infelizmente, muitas vezes, pagar um alto preço. Ou seja, não dá para manter-se isento, em cima do muro, e omisso. Ou a gente se junta e  empurra com força, ou tudo fica onde está.

Sempre que falamos de ajuntamento de pessoas, sempre que falamos de grupo, temos que considerar variedade, todo tipo de variedade. Então, obviamente que as pessoas envolvidas não são 100% aquelas que estiveram honrando o distanciamento social, seguindo os protocolos, e respeitando o luto de tantos brasileiros. Havia gente de todos os tipos, índoles, e seja lá o que for; mas também sei (porque conheço alguns) que, como eu, muitos dos manifestantes não suportam mais, e que a falta de luz no fim do túnel já está ficando desesperadora. Foi preciso fazer algo, porque as redes sociais e as panelas já estão ficando lotadas, e parece que não surtem efeito.

Eu admiro muita gente que abriu mão de sua segurança para me representar nesse grupo de manifestantes, porque entendo que eles estão se arriscando por um propósito maior, para pelo menos acender uma fagulha de esperança em meio a essa escuridão. Então, vou torcer para que as pessoas que com máscaras estiveram  presentes nas manifestações #forabolsonaro tenham a mesma sorte dos motoqueiros e fiéis escudeiros do pró-governo que o acompanham regularmente em suas celebrações, em meio a pandemia, sem propósito e sem máscara.

Aproveito, aqui, para lembrar os propósitos que nortearam as manifestações, ou seja, o motivo que levou tanta gente às ruas no sábado, dia 29 de maio:

  • Impeachment do presidente em exercício (que no caso nunca esteve em exercício, mas em espetáculo);
  • Volta do auxílio emergencial de  R$600 ;
  • Ampliação das vacinas disponíveis e organização decente da distribuição,
  • Fim da violência contra as minorias,
  • Suspensão de cortes de verbas na Educação, das privatizações e da reforma administrativa.

 Eu reconheço que foi um ato com muito risco envolvido, mas eu apoio a proposta, e compartilho o sentimento de urgência

quarta-feira, maio 26, 2021

Vida Editável e Com Instruções de Uso

 


Tem horas que eu penso que não deve ser novidade pra ninguém o Black Mirror em que vivemos, mas, olhando com mais atenção, lendo, ouvindo e vendo coisas diariamente, eu tenho outra sensação - a sensação de que tem gente que vive num universo paralelo de conceito, valores e comportamento. Não é possível, que, tendo noção exata da realidade, essas pessoas entrem nesse mar de ondas revoltas e se sintam numa ilha paradisíaca, com águas cristalinas e pura bonança! É gente que aprendeu a editar a imagem da vida, gostou da impressão que causa, e se alienou nessa imagem. E, sim, isso se torna um universo paralelo de noção de vida. Aliás, pior, torna-se uma tendência progressiva, que acaba por gerar um modelo, formatando não apenas comportamentos, mas ideias, pensamentos e valores.

Desnecessário dizer que as redes sociais são vitrine desse perfil, até porque as redes são vitrines do mundo. O mundo fora da internet é um mundo que não existe mais. A percepção está invertida. Este mundo - real e não virtualizado - é que virou uma ilusão. E, nele, muita gente segue morrendo de fome, de doenças básicas e que poderiam ser tratadas, de frio, de falta de esperança, de tristeza, sem filtro.

Eu estou no mundo virtual. Tenho um perfil social e profissional, e tento viver antenada para não perder avanços relevantes que possam impactar minha rotina. Mais recentemente, inclusive, me envolvi com o recurso de Lives, e também procuro me beneficiar de novos modelos de trabalho que essa realidade virtual oferece. Sei que existem muitos que fazem o mesmo, e que, apesar dessa vitrine virtual mitomaníaca, conseguem manter um mínimo de sanidade, e, na contramão do falso modernismo, têm sólidos valores e ideais, com os quais se mantém engajados, e usa as redes para estendê-los; mas, ainda assim, me incomoda demasiado observar essa tendência midiática falsificada, porque tem sido uma maioria expressiva, e tem me “avizinhado” muito de perto…

Curiosa e inevitavelmente, essa vitrine padronizada e distorcida atravessa barreiras, e, embora tenha forte concentração na imagem pessoal, tem crescido e conquistado o âmbito profissional, e, obviamente, o político e o religioso - estes com fartura.

Parece que não existe mais um jeito diferente de se pensar e fazer as coisas, um modo alternativo para realizar projetos, ou uma opinião inusitada sobre um ou outro método e conteúdo. Tudo virou remédio. Tudo tem bula, mestres, doutores e especialistas. Temos conhecimento disponível num clique, mas escolhemos copiar e seguir o “passo a passo” e, depois, criar a própria bula para o passo a passo que seguimos, e por aí vai. Não vai sobrar um leigo sequer nesse mundo!

Mas eu ainda vejo isso como um universo paralelo possível de ser desativado, ou mantido em modo silencioso. Como? Ainda não sei, mas sei que deve ser lento, preciso e constante; e que isso tem a ver com não nos deixarmos afetar, nem calar, ou se abater. O tal silêncio dos bons, que já incomodava o perseverante Luther King, não pode seguir existindo.

Historicamente, as novidades sempre chegam, evoluções aparecem, transformações acontecem. Isso é parte do processo. Contudo, chega a hora em que essas coisas precisam ser filtradas, ou passadas por uma peneira de valor e sentido maior, para prosseguirmos impactados - talvez não ilesos, mas recuperados, curados, e amadurecidos como frutos saudáveis da árvore da vida.

Os olhos são a vitrine da alma. E isso, numa realidade empírica de vida transcendente, nunca vai mudar.
Ser fake é mais que uma opção, é um cárcere de consciência.

 


quarta-feira, maio 12, 2021

Onde Você se Reconhece?


Não sei exatamente quando o espelho passou a fazer parte da vida da humanidade, talvez em histórias como das bruxas dos contos de fadas, sei lá; mas no momento em que isto aconteceu, este simples objeto adquiriu proporções que ultrapassam a futilidade.


Lembram da lenda de Narciso?  Conta a lenda que Narciso era um jovem de singular beleza. No dia de seu nascimento, um adivinho profetizou que ele teria vida longa desde que jamais contemplasse a própria figura. Mas seu egoísmo provocou o castigo dos deuses. Ao observar o reflexo de seu rosto nas águas de uma fonte, apaixonou-se pela própria imagem e ficou a contemplá-la até consumir-se. Dizem que no lugar onde ele morreu, nasceu uma flor, que ficou conhecida pelo seu nome: Narciso. Na psicanálise, o termo narcisismo designa a condição mórbida do indivíduo que tem interesse exagerado pelo próprio corpo.


O tempo passou, o mundo mudou, e aqui estamos nós, numa complexa relação com o tal espelho. E esta complexidade não se restringe ao físico, à cultura do corpo e suas exigências. Acho que inconscientemente, vivemos alguns conflitos também com um suposto espelho que projeta o invisível de nossa intimidade, nossas frustrações, medos, como se ele nos colocasse frente a frente com o irreversível do que nos tornamos ao longo dos anos.


É complicado enxergar-se e reconhecer-se, sem de fato, compreender-se e admirar-se.

Se projetamos nossa imagem e a definimos a partir das relações com as pessoas e circunstâncias, estes (as pessoas e as circunstâncias) supostamente tornam-se nossos espelhos, e nós, espelho dos outros. Pense bem: Nesses relacionamentos espelhados, nos mais variados sentidos, há que se considerar as possíveis distorções, exageros, supervalorizações. Qualquer imagem sofre variações quando passa pelo outro, pelas coisas, e provavelmente comprometerão a reprodução do nosso “eu”. A visão mais confiável seria, então, aquela que não se projeta, mas que se revela na viagem ao centro de si mesmo.


Nossa vida não foi um acidente, por isso, somos mais do que o que nos mostra qualquer conceito de espelho.

É bom ter consciência dos caminhos por onde já passamos, onde estamos, e até onde pretendemos ir; sentir prazer e ver sentido em cada uma dessas etapas. Saber que o centro do universo não mora no nosso “umbigo” e que a vida e seus reflexos não se limitam a nós.  Se conseguirmos considerar assim,  nossa imagem passa a ser refletida com inteireza, numa constante possibilidade de ver-se, rever-se, reverenciar-se e aperfeiçoar-se; sem  soberba, e sem desprezo, apenas reconhecendo limitações naturais, na paz de amar a si mesma e, assim, ser capaz de amar de verdade o outro.


sexta-feira, abril 02, 2021

SAGRADO

 


“Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana”

(Wayne W Dyer)


Toda linguagem sofre a ação do tempo, da cultura, da região; e as palavras usadas na linguagem são diretamente afetadas por esses fatores.
Algumas palavras mudam completamente o sentido, outras perdem a intensidade, e muitos vocábulos novos surgem, influenciados pelo contexto, pela internet, etc.

Com o SAGRADO, pra mim, o que aconteceu é que sempre foi um termo associado ao ambiente e aos assuntos religiosos.
Daí, quando a espiritualidade deixou de se relacionar única e exclusivamente com os templos e seus dogmas, o culto ocupou um patamar maior - saímos do ambiente da religião, e finalmente nos entregamos ao deslumbramento da vida, e começamos entender o magnetismo e os mistérios presentes nas coisas simples e poderosas do dia a dia.
É nesse momento que o SAGRADO deixa de morar exclusivamente nos preceitos religiosos e passa a afetar e contagiar o simples da vida. V
iver passa a ser SAGRADO.

E qual o sentido de SAGRADO?

Não vamos falar em definição de palavra. Quando a gente define, a gente limita, a gente prende. Quando a gente significa, a gente pode ressignificar; a gente mantém as possibilidades de interpretações e sentido; sem definições, e livre para ser, conforme o momento, a cultura, e o entendimento pedirem.

Sagrado é aquilo que envolve algum ritual, que merece dedicação, que é reservado do ordinário, do comum, e  que pode ter vínculo e simbologia espiritual

Tal qual outras vezes na história da humanidade, esta Páscoa (que já é a segunda que nós estamos vivendo num cenário de  calamidade) é uma Páscoa onde os símbolos sagrados da Religião (por definição) devem ser transcendidos. Judeus têm sua história para celebrar, cristãos também têm, agnósticos, ateus, e seja lá mais o que for, todos temos ovos, chocolates, coelhinhos, etc. Mas esta Páscoa merece ir além desse lugar de rituais simbólicos e aproveitarmos para tratar a vida como ela é: SAGRADA.

Existe algo experimentado por nós tão sagrado quanto a vida?  O bem- estar, a Saúde, respeito, recursos naturais, o direito e o prazer de amar e ser amado, os relacionamentos...

Então, como a gente faz para reverenciar essa sacralidade da vida? É o que eu gostaria que a gente pensasse nessa Páscoa.

O dom da vida é inestimável. E não existe religião, ídolos, símbolos, frases prontas, templos abertos ou fechados.. Nada, absolutamente nada, consegue chegar mais perto de Deus que a vida, da qual Ele é fonte.

Preservar, respeitar e compartilhar  a vida é um louvor, um culto, uma celebração.


Feliz Páscoa. Feliz Vida!

 


terça-feira, março 02, 2021

Sobre Big Brother - do Grande Irmão ao BBB

 



No Brasil, o Reality Show está em sua 21a edição, e eu comecei a assistir a partir da edição anterior, a de número 20.

Esse nome - BigBrother - foi inspirado num livro - ¨1984¨, de George Orwell.

1984 é o título do livro, que foi lançado em 1949, e foi o último de Orwell antes dele falecer. Eu li 1984 em pleno ano de 1984. Estava na faculdade. Nada mais indicativo do que analisar a obra no ano que dá nome a ela. Em 1984, o livro já fez sentido, hoje, então, daria pra fazer uma dissertação específica só sobre isso! Mas 'bóra' seguir.

O livro não é uma proposta de Reality Show, obviamente. Ele pode ser considerado como DISTOPIA, que seria mais ou menos um contraponto da UTOPIA. Enquanto a utopia você lida com um sonho ideal, mundo cor de rosa (e azul, rsrsrsrs), com arco íris e pote de ouro debaixo dele, a distopia é um imaginário com uma pitada forte de infelicidade, angústia, medo, solidão, e fatalidades.   A gente conhece bem esse gênero em diversas obras cinematográficas de ficção.

A história é ambientada numa região “X” do mundo, provavelmente próxima de onde vivia o autor (Grã Bretanha), num futuro imaginário (já que foi escrito em 1949).

No livro, Big Brother é um dos personagens centrais da trama (O Grande Irmão). Ele é o líder  de um governo déspota, autoritário, que não pode ser contrariado. Tem muitos outros personagens interessantes obviamente - o protagonista (Wiston Smith), que narra a história, a mocinha por quem ele se interessa, que é reacionária, e um falso camarada,  que, na verdade, é um traidor infiltrado; enfim, é uma história com um cunho sócio político fortíssimo.

O que nos remete à analogia do BBB é que eles vivem nessa região fictícia, vigiados o tempo todo pelo que o autor chama de TELETELA - uma tela (tipo uma TV), presente em todas as residências, que não pode ser desligada, apenas ter seu volume diminuído, pq ela serve tanto para transmitir as informações ditatoriais do governo, quanto filmar tudo que acontece dentro das casa.

Bom, eu ficaria horas falando sobre o livro porque é extremamente interessante, e muito atual, embora tenha sido escrito há mais de 70 anos. O que nos faz ver que algumas coisas não mudam, e que o bicho homem é mesmo uma coisinha previsível, influenciável, e, dependendo do tamanho do ego, o próprio demônio. 

Sugiro a leitura, porque vale a pena. Mas e o nosso BBB?

Bom, o primeiro carinha a ter a brilhante ideia de montar uma paráfrase esvaziada de  conceito da obra de Orwell foi um Holandês, se não me engano, nos idos dos anos 90. Depois, as emissoras, interessadas na audiência do programa, foram “comprando”  o direito e replicando o seu formato. Daí, então, chegamos ao BBB - que é o BigBrotherBrasil.

Eu não tenho paciência para reality show. Para mim, só o fato de uma pessoa saber que está sendo filmada já compromete a legitimidade do que é mostrado em 99%. Por muito tempo, eu fui inclusive militante contra o BBB. Na minha cabeça, era como se colocassem um monte de gente numa jaula, e me fizesse abrir mão do meu tempo precioso para assistir pessoas se expondo, muitas vezes, sem um mínimo de conteúdo, o que não me acrescentaria nada.

A minha opinião não mudou de todo, mas houve um reajuste de pensamento, um aprendizado pessoal.

Meus filhos cresceram, hoje são jovens adultos, e, ao longo da nossa convivência, eu precisei mesmo rever muitos conceitos, em relação ao meu modo de olhar a vida, o comportamento social, e minha rigidez de posturas e de opiniões temporais.

Aos poucos, fui partilhando do mundo que eles vivem, e percebendo cada dia mais que uma caminhada familiar saudável deve ter troca de experiências, aprendizado recíproco, e muita discussão, obviamente. Educar é um processo com prazo de validade, inspirar é uma coisa mais contínua e duradoura, mas a noção de certo e  errado acontece na relação pais e filhos até um determinado momento, depois, o que fica é o suco do que se construiu, é o amor envolvido, e os valores pregados e praticados. Depois que os filhos crescem, vivenciamos desafios diários de gerações, opiniões, e outras coisas mais.

Quando percebi que gostaria de manter essa troca com meus filhos, eu comecei um exercício de autoconhecimento, de flexibilizar pensamentos, de ressignificar minhas verdades pessoais. Foi muito saudável, melhorei como pessoa, e sigo caminhando. Foi aqui, então, que comecei a considerar assistir BBB com minha filha, para poder continuar conversando com ela sobre tudo, e ter legitimidade nos meus argumentos.

Paralelo a isso, uma das atividades no meu trabalho passava por mentoria com um time de profissionais jovem, com quem estabeleci uma relação de afeto, e, no andar do processo de mentoria. Muitas questões pessoais eram trazidas, e me davam oportunidade e permissão para orientar, e compartilhar minha experiência. Uma das meninas da mentoria me trouxe o assunto BBB, e me surpreendeu com um comentário: “você deveria assistir BBB como suporte para seu trabalho com pessoas, Beth. O que acontece lá, eu vejo frequentemente acontecer no nosso dia a dia”. Nesse dia, voltei pra casa pensando, juntei com muita coisa que ouvia dos meus filhos, e cheguei a uma conclusão: Qual tinha sido a última vez que eu havia flexibilizado uma ideia rígida minha, saindo da minha supremacia do correto?

Obviamente, nossos valores costumam ser inegociáveis, mas ali, não era uma questão de valores, era uma questão de leitura de vida, de investimento intelectual, de opinião. Eu não estava indo matar, enganar ou trair alguém; e também me dei conta de quem eram as pessoas que estavam tendo essa argumentação comigo, da abordagem e da base da nossa relação. Por que ser tão inflexível diante de uma situação tão leve, de terreno agradável e fértil?

Como estava no início da 20a edição, joguei a toalha, e abracei a vida fútil de telespectador de BBB.

Foi muito bom. O Reality Show? Não necessariamente. Este ficou dentro do esperado. O que foi muito bom foi a minha experiência de fazer algo fora do meu script, e o descortinar dos meus olhos para um mundo que não acontecia dentro dos meus parâmetros, de minhas interações seletas, minha intelectualidade, e meus achismos, mas que fazia parte da não limitação humana - positiva e negativamente falando; e que extrapolou para o universo paralelo das redes sociais, com a mesma “pegada”, ou seja, naveguei por perfis nunca dantes navegados a partir de comentários e hashtags relacionados ao BBB e seus participantes.

Saldo: positivo. 

Deixei de ser ativista CONTRA para ser A FAVOR? Não! Sigo achando que tem muita coisa melhor para se produzir para as mídias, mas, reflito cada vez mais sobre aceitar que não sou o centro do universo, nem a última bolacha do pacote, que “há gosto pra tudo”, e que sou apenas mais uma. Se quiser fazer a diferença, preciso estar envolvida. Analisar inevitavelmente, flexibilizar algumas vezes, e aprender sempre.

Quero saber continuar, parar e voltar atrás; mas nunca estagnar.



segunda-feira, dezembro 07, 2020

COVID-19: UMA GUERRA INVISÍVEL AOS OLHOS


 

Estamos praticamente há um ano imersos numa realidade insegura, desconfortável e trágica - a pandemia do COVID19.

Como sempre, quero deixar aqui registrado que não sou médica ou especialista no assunto,  jornalista, não tenho informações privilegiadas a respeito de nada. Minha reflexão e meu modo de analisar a situação é de uma cidadã como qualquer outra.

Uma coisa é clara: a pandemia está aí, pessoas morreram e seguem morrendo; muitas ainda internadas, outras foram acometidas e contaminaram seus familiares de grupo de risco. Alguns testaram positivo, mas seguem assintomáticos, muitos não conseguiram sequer testar, e um monte de gente segue distribuindo vírus pelo mundo.Um vírus que tem características similares a outros, mas que também tem peculiaridades biológicas desconhecidas.

Bom, não há dúvida de que precisamos de isolamento, distanciamento e outros protocolos já devidamente implementados . Mas, ainda assim, enfrentamos o velho conhecido padrão da ignorância humana - aqui em sentido latu senso, ou seja, aqueles que ignoram porque desconhecem a dimensão e idiossincrasias da doença e do contágio, e os que são imbecis mesmo, porque escolhem não dar a atenção devida a algo tão sério.

Sim, eu sei que o cenário econômico pode tornar-se insustentável,  que as pessoas precisam pelo menos comer, dormir e sobreviver. Mas quero dizer que não acredito que seja  o comportamento de quem precisa comer que está distribuindo livre e faceiramente o vírus por aí. Não são  os trabalhadores que se sacrificam todos os dias (na inevitável labuta do que “não pode parar”) os únicos responsáveis e que deveriam se isolar. Obviamente existe a possibilidade de que sim muitos ainda estejam transmitindo e sendo infectados, mas a grande maioria deles não ignora os protocolos, pois são monitorados por seus empregadores, e não costumam ser poupados na hora de uma advertência, ou penalização pior - caso sejam flagrados ou denunciados.

O isolamento implica em ônus pesados, mas, nesse caso, implica em um bônus inestimável - vidas!

Crises, angústias, crianças irritadas e muitos outros sintomas frutos desse momento tão delicado são inevitáveis, e exigem muito da gente sim, exigem equilíbrio, responsabilidade, empatia. Mas vocês já pararam pra pensar se estivéssemos em guerra? E será que não poderíamos considerar que estamos?

Sabe aqueles filmes ambientados na época das Guerras que você gostou de assistir? Volta lá e assiste de novo, com um novo olhar, prestando atenção nos detalhes sócio comportamentais.

Geralmente nesses filmes, e nas guerras de embate físico, o inimigo tem rosto, tem arma e caráter -  mau caráter, mas ele tem. Perceba que nas guerras não se lida com meros protocolos apenas, mas com ordens, com medo, com sangue. As pessoas obedecem para garantir a vida. Geralmente existe um toque de recolher; uma proibição, que pode custar sacrifícios horríveis, e que causarão os mesmos (ou piores) sintomas de que falamos - depressão, angústias, anos escolares interrompidos, etc.

No caso de uma pandemia, estamos em uma guerra de perigos diversos, velados, porque não é só o vírus que é perigoso, as pessoas são perigosas, porque são egoístas quando deveriam sacrificar seu churrasquinho no final de semana, sua saída na  nigh, sua compra de supérfluos nos shoppings, e por aí vai.

Essa flexibilização que as pessoas estão tendo permissão para fazer , numa guerra, elas correriam risco de serem  alvos imediatos, de serem visivelmente atingidas, e, por isso, talvez, temessem de verdade. Como se diz: o que os olhos não veem o coração não sente… A invisibilidade do vírus está contribuindo para uma falsa impressão de segurança. E mais: As pessoas assimilaram a máscara, o álcool em gel e o lavar as mãos em suas  rotinas, mas o distanciamento e isolamento, podem esquecer! .Tenho a impressão que as pessoas acreditam que a máscara tem superpoder. A tradicional falta de educação em ceder a vez em espaços pequenos segue valendo.

Mas em tempo de guerra, a gente se refaz. O pós guerra sempre foi tempo de transformação. Econômica, social, pessoal. Basta revisitar a história.

Eu acho sim que este é um momento para ressignificar coisas, pessoas e valores; conhecer e peneirar necessidades e relacionamentos. Mesmo que lá na frente o psicopata social ressurja, ainda assim, mudanças significativas acontecerão.

Hoje, a gente olha para o Holocausto com horror, mas ouso lhes dizer que muitos de nós, se estivéssemos imersos naquela vibe de psiopatia social da época, talvez considerássemos muito justo denunciar um vizinho que protegia um judeu para tornar-se responsável pela morte de uma pessoa, sem culpa, e ainda vaidoso de sua ação de cidadania. Seguimos os mesmos, em momentos diferentes, de guerras diferentes também.

Para que vocês reflitam junto comigo, quero usar aqui uma frase da contracapa de uma das edições do livro A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS.:

Quando a morte resolve contar uma história, vc tem que parar pra ler.”

Será que a morte não estaria nos contando uma história?

Já são mais de 1 milhão e meio de mortos no mundo , até este momento em que estou escrevendo,.

A gente tem que parar .

quarta-feira, setembro 16, 2020

Estou Cansada de Tanta Hipocrisia Religiosa (TEXTÃO)


Para situar vocês, leitores, devo dizer que tenho berço cristão, evangélico. Mas já adianto que na  minha época ser "crente" não era modismo, e não tinha visibilidade em mídias. 

Vivi minha infância, adolescência e parte da juventude num ambiente religioso, e boa  parte desta época, estive submetida a doutrinas comportamentais rígidas, que me constrangiam, e tornavam meu  temperamento extrovertido e questionador um problema. Para mim, sempre foi muito difícil seguir algo que não  entendesse; por isso mesmo, comecei ler e estudar a bíblia bem cedo, ainda na adolescência.  Aproveitei que a igreja incentivava a atividade, e me dediquei com afinco. As dúvidas eram  milhares, e os encantamentos idem. 

Pra mim, a noção de um Deus nunca foi questionável do ponto  de vista de sua existência, isso sempre foi muito tranquilo, e segue sendo até hoje. Mas os cenários, a cultura, as simbologias, as personagens, a variedade de  interpretações, etc, isso era questionável, e esses questionamentos me angustiavam  profundamente, principalmente pelo fato do tema me ser tão caro, por eu ter uma vontade  sincera e intensa de oferecer o que havia de mais genuíno em mim, sentir que meu  coração ardia pelas questões espirituais, me emocionar, e não me  sentir parte, não me identificar como gostaria.

Eu não sei dizer precisamente em que momento a igreja evangélica mudou. Ou melhor:  A igreja não mudou. Acho que lentamente algumas instituições e líderes foram se popularizando, flexibilizando suas  doutrinas rígidas, outros foram aderindo à moda, e  foi ficando fácil  pertencer. Eu não acompanhei de perto esse processo “evolutivo”, pois, num dado momento, antes  disso, eu já não estava mais conectada como membro ativo daquela comunidade de fé.

Muita coisa aconteceu na minha vida pessoal: Faculdade, um casamento precoce (com o primeiro e único namorado) se desfez, descobertas de traições de vários tipos, mudanças radicais de postura, e uma nova busca  por entendimento de vida e noção das coisas. Lá estava eu. Aproveitei que a terra estava toda  remexida debaixo dos meus pés, e fechei um “pacote” com Papai do Céu: Eu não o largaria por  nada nesse mundo, mas eu queria poder ser quem eu realmente era. Transparente, com dúvidas  e certezas (poucas), disposta a novos aprendizados, conhecer e se dar a conhecer, e chegar o  mais próximo que pudesse da Sua essência. Nosso pacote considerou meus erros e o seu perdão,  seus desígnios e minhas muitas dificuldades de entender alguns deles. Mas prosseguimos,  sempre juntos. E, olha… Ele nunca me deixou… (esta é a parte em que eu choro!) 

O pacote segue vigente, e continuo meu aprendizado diário. 

Voltando à Bíblia.

Desde a primeira vez que me propus a estudar, até os dias atuais, minha leitura nunca  foi única, nem isolada. E isso sempre me fez muito bem. Eu fui mudando, amadurecendo, descobrindo novos estudos das literaturas e das teorias de mundo, sociedade, raça  humana; lendo e interagindo com outras propostas reflexivas, e sempre incorporando um novo  olhar sobre o panorama histórico-cultural da Bíblia. Nada, neste meu exercício de  conhecimento, me roubou a fé, nem diminuiu Deus, muito pelo contrário. 

Agora vemos apenas um reflexo obscuro, como num espelho; mas, então, veremos face a face.  Agora, conheço em parte, então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou  conhecido.” (Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios, cap 13, vs 12)  Desde que entendi este trecho, percebi que minhas incertezas seriam frequentes.

A Bíblia é, sem dúvida, uma obra fascinante, fruto de muita dedicação e trabalho minucioso de especialistas, e traz até nós uma história preciosa e poderosa da revelação de Deus: o AMOR, neste caso, feita na figura de Jesus Cristo.

Sei bem que são poucos os humanamente privilegiados, com acesso à leitura, ao estudo, e  conhecimento mais profundo da Bíblia como literatura. E, obviamente, não amarro esta  condição à fé de ninguém, e nem à ação divina. Deus vai muito além da nossa intelectualidade.  

Aqui, eu talvez consiga conectar meu raciocínio às recentes ocorrências envolvendo  evangélicos famosos, como, por exemplo, a Ana Paula Valadão. 

Dentre os poucos privilegiados, eu arriscaria dizer que Ana Paula Valadão é uma pessoa com o excelente acesso à informação, estudo e conhecimento de modo geral. Então, não me  sinto expondo fragilidade de ninguém.

Quero começar dizendo que não a recrimino pelo  entendimento de fé que adquiriu, muito menos por suas experiências pessoais com esta fé.  Olhando de longe sua caminhada, vejo conquistas, e também  identifico avanços significativos no uso de recursos - didáticos e de infraestrutura - para fazer sua  missão evangelística alcançar e transformar vidas. Os projetos  primários do Diante do Trono, os investimentos, as oportunidades de emprego e voluntariado,  e por aí vai… Na minha opinião, isso é muito positivo. Só não consigo associar esta gama de  conhecimento e recursos com tanto engessamento cognitivo e  falta de sabedoria na manifestação  do amor do Cristo.  A conta não fecha. Pergunto-me se ela  perdeu a mão em algum momento, se preferiu não transcender em conhecimento para investir num império “business-Gospel”, ou  se é uma questão de limitação mesmo. Na minha cabeça, parece um desperdício ( porque escolhi não considerar má fé). 

Seus posicionamentos recentes me fazem pensar o seguinte: 

a) Falta um mínimo de empatia!  

É mais ou menos como estar diante de uma pessoa com câncer terminal, sorrir, e dizer: “Olha,  eu vim aqui dizer que Jesus te ama, mas tenho que te lembrar que o salário do pecado é a morte,  portanto, muito provavelmente, isso tudo que está te acontecendo tem a ver com coisas erradas  que você fez”; 

b) É uma prática religiosa que escolhe pecados

Evita-se jogar luz em questões culturais relacionadas à evidente promiscuidade dos reis com suas muitas  concubinas, em prováveis relacionamentos incestuosos pós criação do mundo, em crimes de guerra em nome de Deus, no sacrifício das doutrinas de restrições  alimentares; e até flexibiliza-se o divórcio (antes tão maldito, mas que já foi contemporizado), mas sustenta-se que existe uma operação  diabólica na homossexualidade, ou seja, legisla-se em nome de seus próprios preconceitos e dificuldade de entendimento, pois, a  grande verdade é que a grande maioria de nós desconhece totalmente os conflitos íntimos de alguém que vive esta crise de identidade;

c) Desperdiça-se  a potencialidade, transcendência e magnitude de Deus Coloca Deus na  caixinha do seu próprio entendimento, e navega por um mar de águas paradas, onde nada muda nunca, nem a maré;

d) Não se contextualiza a mensagem do Evangelho

A personagem de  Jesus Cristo, sua mensagem, sua experiência humana, a proporção de sua  interferência na história, tudo mantém-se arraigado unicamente a leis e profecias do Antigo Testamento. Isso é desprezar a história e sua continuidade,  as circunstâncias, as épocas, e repetir uma noção de fé estática no tempo.  Qualquer um que resume um compêndio bíblico num livro de prática religiosa  única e com verdades absolutas  imutáveis não está sensível ao sentido de vida e ao tamanho de Deus.

Quero deixar aqui registrado que não estou associando o entendimento bíblico filosófico à fé de  ninguém. Pra mim, são coisas que não precisam estar necessariamente atreladas. Conheço  pessoas humildes, que nunca tiveram oportunidade sequer de serem alfabetizadas, que vivem  uma fé gigante, e que são sensíveis e usadas por Deus; muitas seguem suas restrições doutrinárias, e o fazem de  forma genuína. Seria crueldade minha julgá-las, e obviamente um Deus que é amor em essência enxerga isso melhor que eu.

A questão que trago nos meus comentários tem a ver com a manipulação do conteúdo bíblico  de modo insensato e até leviano. Por trás de aparência de santidade, há atitude presunçosa e  ambição de celebridade. E, no alastramento desses perfis, tudo vai se confundindo, e a essência  vai se perdendo. 

Sobre a Ana Paula (e com ela muitos outros), até um tempo atrás, eu só “lamentava”, mas,  ultimamente, tenho me incomodado bastante. Não que eu já tenha compreendido toda  a inteireza bíblica, nem que tenha todas as respostas sobre vida espiritual, mas a minha fé  se fundamenta numa experiência transcendente com um Deus que é essencialmente fonte de vida e amor, e Ele não cabe  inteiro em uma religião. Eu o reconheço quando o “sinto", é como se dentro em mim  algo o identificasse (tipo o Espírito Santo, sabe? ), e me ajudasse a discernir a linhagem espiritual diante de mim. Não quero parecer pretensiosa falando assim, mas essa foi uma descoberta empírica  em minha vida, e cansei de negligenciá-la, enquanto tantos absurdos são falados e feitos por aí em nome de Deus, sem qualquer pudor. 

E, neste sentir, devo dizer que:

Não ouço Deus na voz de gente que fala sobre dores que não são suas com  autoridade de quem leiloa o céu. Não sinto Deus em quem não chora com os que choram, gente que se importa e privilegia credo, cor, gênero, orientação, status; e também não vejo Deus em quem mistura e compromete fé com “politicagens”, e usa a religião em benefício próprio - alguns até para camuflar seus delitos e perversidades. Gente que grita textos bíblicos como jargões de guerra, desprezando a beleza e o valor de sua simbologia.

A voz de Deus é como uma brisa suave, que sopra sobre todos, e que se encarnou na figura de Jesus para revelar sua essência de amor, para que todos os sedentos e famintos pudessem ser saciados, e colocou em cada um de nós o seu Espírito, para que pudéssemos ser também sua  voz, socorro, alimento, aconchego; pois nele somos um, parte do mesmo TODO, que é fonte de vida,  paz, justiça e amor.

Lamento e me incomodo muito com Anas, Flordelises, Macedos, Malafaias (a lista é enorme), mas também me incomodo com os ordinários desconhecidos do dia a dia, que preferem o comodismo do seu silêncio do que o confronto das pequenas lutas diárias por um discurso mais transparente, para não comprometer suas mordomias privilegiadas, nem as riquezas mal distribuidas no mundo, inclusive em nome de uma teologia de prosperidade criada pra sua vaidade! 

Sei, na minha pele, que muitos se calam sim por comodidade e oportunismo. Como citei no início do texto,  eu questionava e buscava entender  coisas simples que, hoje em dia, depois de toda a customização da fé, a galera evangélica usufrui  na boa, e que, na época, eu não tive um eco sequer.  Aí, você pode me dizer: “Que bom que pelo menos mudou!”, eu digo que não celebro coisas conquistadas por modismos; eu celebro vitórias de esforços dignos, lógicos e devidamente assimilados.

Minha fé não é inabalável porque não muda, ela muda sim, mas não se desfaz; se ressignifica na renovação do meu entendimento, conforme vou vivendo, experimentando novos desafios e amadurecendo. 

É mais ou menos isso que eu esperaria de uma mulher culta, líder religiosa, que sabe inclusive distinguir uma bota Piton de outra qualquer - que sua visão de fé e espiritualidade acompanhasse o restante do seu desenvolvimento e investimento.

Desculpem o textão de desabafo, mas é inominável gente que para no tempo só para o que lhe convém, e segue fazendo discípulos, e machucando pessoas.


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