quinta-feira, setembro 09, 2021

Fé, Religião e Política

 

Passei por muitos caminhos de reflexão nos últimos anos, e, boa parte deles, dentro de um ambiente religioso. Hoje, reconheço o que bem disse o poeta Antonio Machado em seu CANTARES: "Caminhante não há caminho, se faz caminho ao andar". O processo de elucidação, autoconhecimento ou espiritualidade acontece em nós enquanto vivemos, conforme nossas experiências, nossa predisposição de alma, nossa sede de pertencimento no cosmos, e nossa solicitude ao divino. E isso pode se dar dentro ou fora de uma religião.

O que tem acontecido no campo visível da podridão político-religiosa não tem nada a ver com a essência de uma fé genuína, da busca por conhecer e experimentar Deus.

Fé, religião e política é uma relação altamente prostituída, no pior sentido da palavra.

Mas isso não é de agora não, sempre foi assim. Aliás, de acordo com a história do Cristianismo, por exemplo, esse era o “grande sugador de energia” de Jesus. Seu tempo em forma de gente nesse plano foi para resgatar princípios e valores nas intenções e ações que nascem em nós, e nos instruir por inspiração e direcionamento do espírito que soprou sobre nós, pois aparentemente, nos perdemos na experiência humana. Nesse tempo, o que dele sabemos foi que viveu de forma pacífica, mas não passiva; que tinha eloquência para estar entre os doutores da lei, mas vivia entre pescadores; que andava com feridos, desprezados e marginalizados, que nunca usurpou poder ou glória para si, que usou as crianças como exemplo de pureza, e surpreendeu líderes religiosos, rompendo com tradições e hábitos que não priorizassem o amor.
A partir dessa sinopse, é absolutamente contraditória a linha de pensamento cristã-religiosa atual com a prática do Cristo a quem dizem seguir.

 

Igreja e Estado sempre tiveram um envolvimento inescrupuloso, interesseiro, e abusivo. A questão é que a variedade de “personas” no mercado religioso se multiplicou absurdamente, e isso pulverizou as teorias e promoveu uma produção em série de ídolos carnais esvaziados de valor. Por incrível que pareça, a impressão que eu tenho é que, no passado, Igreja e Estado tinham interesses mais evidentes na disputa pelo poder. Hoje, os estereótipos de fé trazem uma cortina de fumaça sobre as reais intenções. Fato é que isso não é novo. O que me frustra é a recorrência tão potencializada, em pleno Século XXI. Inacreditável que tenhamos chegado até aqui com tanto acesso à informação e conhecimento, e, ainda assim, haja espaço para propagação dessa “aura” do mal.

 

Deus é atemporal, eterno, insondável, transcendente, e inesgotável em ser. Ele não precisa do meu conceito a respeito dele para existir. Ele simplesmente é. Tentar decifrá-lo é quase exaustivo, não fossem os mistérios que nos colocam vulneráveis a experimentá-lo na dimensão genuína, pessoal e intransferível da fé de cada um de nós.
Portanto, é plenamente legítimo ter uma ideia de Deus. Mas o que vemos hoje não tem a ver com isso, o que vemos, e que se repete historicamente, tem a ver com um branding de fé, com logo, identidade visual, e público devidamente estabelecido; tem a ver com a comercialização de um conceito que deveria ser santo; tem a ver com a profanação do sagrado. Isso sim é um pecado*.

Certamente Deus recebe com amor nossa tentativa de decifrá-lo, seja como for, mas deve desprezar a ufania de quem torna isso um produto, com embalagem, branding e custo.

 

*  OBS: A palavra pecado deriva do latim ‘peccatum’, que remete a “tropeçar, dar um passo em falso; enganar-se”.


quarta-feira, julho 21, 2021

QUEM CONTA UM CONTO...

 


Já ouviram o provérbio: QUEM CONTA UM CONTO AUMENTA UM PONTO ?

Pois é.  Os ditados populares costumam carregar realidades bem interessantes em seu conteúdo rápido de informação.  

Cada contador de história possui um filtro. E esse filtro é inevitável, natural. Que filtro é esse?

Qualquer situação, mesmo a mais evidente, ao ser reportada, vai ter versões diferentes. Na melhor das hipóteses, vai variar a linguagem, o sotaque, o estilo – uns mais detalhados, outros mais assertivos. Isso se deve a um filtro natural das idiossincrasias pessoais.

Por exemplo: Quando a gente mostra a mesma imagem para pessoas diferentes, e pede para que descrevam o que estão vendo, por mais semelhantes entre si, teremos impressões e comentários diferentes.

Os filtros não necessariamente adulteram a história, eles costumam apenas revelar foco, preferências e tendências de cada um sobre fatos, imagens, sobre o outro, etc. O temperamento, por exemplo, costuma ser um filtro, influenciando o modo de assimilar situações, interpretá-las, e, consequentemente, traduzi-las na hora de relatar.

Um outro filtro importante sobre contar histórias é a memória e o lado que o narrador se encontra. Talvez este não seja um filtro 100% natural, automático, mas é condicional e relevante.

Vamos imaginar: Se, num determinado contexto – pode ser um jogo, um campeonato, um concurso ou mesmo uma luta pessoal, com um projeto, ou uma doença, enfim, seja o que for; se você sair dessa experiência como vencedor, a sua história vai ter um estilo, uma carga de energia e uma memória emocional sobre o que aconteceu diferente de quem porventura perder. A retórica de quem sofre e não vence tem um tom diferente, ainda que discreto, pois as sensações envolvidas são outras.

Mas onde eu quero chegar com esta reflexão?

Eu gostaria que vocês acompanhassem meu raciocínio sobre a necessidade de sermos flexíveis no entendimento da História, sim, com H maiúsculo. E quais histórias seriam?

A História da Criação e evolução do Mundo, a História do Brasil, a História da Religião, histórias que não são da Carochinha*, que são histórias importantes para nossa identidade e referência humana, social e pessoal, mas que, inevitavelmente, também sofreram o processo do “ponto aumentado”, aliás, dos pontos! Ponto dos temperamentos, das impressões pessoais, das interpretações, do lado (perdedores e vencedores contaram e contam muitas histórias), e por aí vai...

Vocês percebem quão relevante é compreendermos que não existem verdades absolutas no conhecimento que a gente adquire por meio de nossas heranças históricas, quaisquer que sejam elas?

Vejam quantas coisas envolvidas num simples processo de fazer uma história seguir adiante! É impossível termos consciência da possibilidade de tantos filtros, considerando todos os cenários, e, ainda assim, acharmos que o fato como nós ouvimos (ou aprendemos) nos foi passado em sua integralidade, que a versão que nós temos é a correta. É o velho e divertido “telefone sem fio que a gente vive na micro experiência social da brincadeira, projetado no âmbito histórico extraordinário.

A gente pode (e é “de bom tom”) ter opinião e conhecer as teorias sobre as coisas, mas isso não revela a inteireza dos fatos. Algumas teorias são opiniões relevantes de estudiosos, em suas respectivas áreas; e elas são muito importantes, agregam valor ao nosso processo de entendimento sobre variados assuntos, e devem ser ouvidas, consideradas e discutidas. Elas podem inclusive servir de norte, de direcionamento para escolhas e formação de uma opinião. Um estudioso numa determinada área ou tema geralmente é chamado de “Líder de Opinião”, justamente por ser natural essa relação de troca, inspiração e fonte de conhecimento e aprendizado no desenvolvimento humano.

Viver é como montar um enorme quebra-cabeça em grupo. Aos poucos, as coisas vão se encaixando, mas sempre estaremos diante das peças soltas. Mesmo para aqueles que julgam saber a solução da imagem final (porque viram na tampa da caixa), as peças ainda estão espalhadas, e a vida, como conceito e essência, não tem uma caixa exclusiva para cada ser vivente, ela é única como fonte, e somos todos parte de seu imensurável “todo”.

Posicionamentos extremistas, partidários e rígidos sobre experiências que não foram empiricamente nossas, situações que não vivemos – individual ou coletivamente – não revelam verdades, revelam uma predisposição de não querer continuar descobrindo as peças, de não se permitir aprender com o processo; isso é, de certa forma, o que a gente tem ouvido repetidamente nos últimos tempos: o famoso negacionismo.

Mas segue sendo de suma importância que histórias sejam contadas, e ouvidas. É assim que se constrói uma raça, uma sociedade, uma herança cultural, a nossa história.

 Por isso é tão importante ouvirmos versões diferentes, e não tomarmos nenhuma versão por nossa, exceto se for realmente algo muito pessoal, e, portanto, “nosso”, no sentido de vivido em nossa pele e alma. Sempre lembrando que o relato da experiência é autoral, e que a apuração dos nossos ouvidos para histórias - e para a História – é um indício de sabedoria. Considerar minhas verdades como incondicionais e soberanas é como desistir do jogo, é negar a fonte inesgotável de aprendizado que a vida coletiva nos oferece.

O ideal seria que, ao ouvir um conto, pudéssemos nos manter equilibrados sobre a atenção merecida, com a devida empatia (inclusive pelos prováveis filtros), e a consciência de que podemos estar diante de mais uma “pista” do enigma da vida – que pode ser usada ou descartada, conforme a sutileza ou a aberração dos pontos aumentados.

 

 


quinta-feira, julho 08, 2021

NEGACIONISMO - UM ESPELHO DISTORCIDO

 


Grandes tragédias que marcaram a humanidade foram fruto da ignorância de muitos a serviço  do negacionismo de alguns.
O negacionista é aquele que tem uma imagem distorcida de si, da sua história e de seus porões, e que projeta essa deformidade em tudo que faz. Se visitarmos os porões e baús empoeirados da história, vamos identificar condutas, omissões e barbáries tão familiares quanto um espelho. Para o negacionista, o que o espelho reflete não é a realidade.
Baús abertos aguçam memórias esquecidas, proporcionam novas interpretações, revitalizam nossa consciência, e remodelam nosso entendimento.

Conhecer nossas raízes como indivíduo, como povo, e como espécie é antídoto para desastres iminentes, e aprendizado para gerações futuras.  Na educação, nas Artes, nas ciências, e nos diálogos, existem portais capazes de nos levar ao encontro de nós mesmos. São espelhos para quem busca autoconhecimento e evolução. Por isso, para um déspota reinar, é imprescindível que o povo seja refém de seu formalismo distorcido, e não tenha conhecimento histórico, nem noção das possibilidades de um horizonte; ou seja, um povo sem educação é um prato cheio para ser devorado, sem piedade.

Os rastros dos acontecimentos históricos marcaram o passado, mas nossos passos seguem avante, pisando outros caminhos; então, quanto mais tivermos real noção dos erros cometidos, contados a partir de experiências legítimas,  sem saudosismo tolo, ou negacionismo intencional, mais habilitados estaremos para escrever uma nova história, evitar passos arriscados, passando o bastão para que o futuro assimile e prospere, com o devido discernimento e consciência renovada.

Autoconhecimento e empatia – a versão revisada do maior dos mandamentos: amar ao próximo como a si mesmo. Esta é a chave que abre as janelas democráticas do tempo; e olhar passado, presente e futuro com essa prerrogativa é mágico e transformador, porque ela nos coloca na perspectiva do outro, e valores como paz, justiça, respeito,  deixam de morar na propriedade do domínio da nossa conveniência, para se tornar um direito natural como a chuva, o sol, o vento, e o horizonte, este, sendo diverso, convida, encoraja, mas não se define, se renova, a partir do próximo ponto de visa, de um novo posicionamento, de uma nova condição, de um novo sentido.
Negar realidades, seja em que momento for, é interromper a cadeia de renovação da vida, seja por ordem natural, sobrenatural, ou mediada por uma ciência (no sentido de saberes). Um negacionista é um agente de morte, em suas mais variadas concepções,  pois todas se opõem à vida.


quinta-feira, junho 03, 2021

Manifestação 25M_Pandemia COVID19


 A convocação de manifestação contra o governo de Jair Bolsonaro em diversas cidades do país, no dia 29 de maio,  em meio a pandemia, me deixou muito apreensiva, mas, ao mesmo tempo, tenho que dizer que entendo a angústia desse grito engasgado .

Vejam vocês que situação delicada, e inevitável.

O que me deixa ainda mais angustiada não é só a aglomeração (embora tenha havido orientações explícitas dos organizadores a respeito da máscara, álcool e distanciamento, foi uma aglomeração); acontece que, além de estarmos quebrando um protocolo de comportamento, eu já antevia a manipulação de informações, os confrontos ideológicos, a “deixa” que gente cheia de ódio e sem disposição para argumentação de valor queria para tripudiar em cima de temas tão relevantes pelos quais temos lutado há pelo menos 3 anos.

Eu estou tão negativamente impactada pelos acontecimentos e pela postura de pessoas ao meu redor (longe e perto de mim), que já não acredito mais numa solução em curto ou médio prazo, e acho que a galera que foi para as ruas nessa manifestação está como eu: desesperada.

Olha, gente, é muito angustiante você reconhecer a legitimidade de um ato, no caso dessa manifestação, e sentir que a tiro vai sair pela culatra. Se não fosse a pandemia e meus riscos pessoais, eu estaria com certeza apoiando 100% o evento, porque de fato já passou da hora de algo ser feito a respeito de tudo que temos vivenciado como consequência da  péssima administração de crise no país, além da série de eventos criminosos que vem sendo propositadamente minimizados para blindar gente inescrupulosa, verdadeiros bandidos velados, escondidos atrás de uniformes sociais e religiosos. Isso é uma psicopatia.

Justamente por conta desse cenário que acabei de descrever é que me angustio, mas ainda acho que o tiro vai sair pela culatra.

Essa tem sido uma estratégia frequente desde o início - a campanha desse governo foi feita dessa forma, não há  muito o que ser feito. É aqui que eu me vejo frustrada, porque olho ao redor, ouço pessoas que poderiam estar fazendo diferença, e começo a pensar que não existe saída, gente.

Talvez por isso essas pessoas (as que estiveram no ato do dia 25) estejam colocando em risco o seu momento e de suas famílias,  para aliviar a garganta engasgada; e eu temo muito por todos que estiveram envolvidos na manifestação, mas, ao mesmo tempo, me sinto orgulhosa da iniciativa e da ira que os consome, porque sim, essa ira é um motor necessário para uma causa que tem a ver diretamente com a vida e seus valores mais legítimos.

Eu fiquei tão receosa a respeito do evento, que cheguei me manifestar  no perfil de um dos organizadores. Mas, depois, fiquei meditando: Qual seria, então, a minha melhor sugestão?  Seguir com o “rabo entre as pernas”, acuados, sendo dizimados diariamente, e esperando 2022 chegar sem qualquer garantia de que isso vai mudar?

Olhando para trás, desconheço mudanças significativas ocorridas na história que tenha sido desencadeada sem uma atitude radical. O equilíbrio é manutenção, pessoal. Equilíbrio é respiração, é disciplina, é ritmo. Aqui, não estamos mais falando de equilíbrio faz tempo! Não temos mais condições de estar equilibrados. Mudança e transformação de um estado ou de uma condição tem a ver com processo sim, mas, o virar da chave, o impulso, a decisão, nisso a gente precisa colocar força, coragem, ímpeto, é a hora de arriscar tudo, é pegar ou largar, e, infelizmente, muitas vezes, pagar um alto preço. Ou seja, não dá para manter-se isento, em cima do muro, e omisso. Ou a gente se junta e  empurra com força, ou tudo fica onde está.

Sempre que falamos de ajuntamento de pessoas, sempre que falamos de grupo, temos que considerar variedade, todo tipo de variedade. Então, obviamente que as pessoas envolvidas não são 100% aquelas que estiveram honrando o distanciamento social, seguindo os protocolos, e respeitando o luto de tantos brasileiros. Havia gente de todos os tipos, índoles, e seja lá o que for; mas também sei (porque conheço alguns) que, como eu, muitos dos manifestantes não suportam mais, e que a falta de luz no fim do túnel já está ficando desesperadora. Foi preciso fazer algo, porque as redes sociais e as panelas já estão ficando lotadas, e parece que não surtem efeito.

Eu admiro muita gente que abriu mão de sua segurança para me representar nesse grupo de manifestantes, porque entendo que eles estão se arriscando por um propósito maior, para pelo menos acender uma fagulha de esperança em meio a essa escuridão. Então, vou torcer para que as pessoas que com máscaras estiveram  presentes nas manifestações #forabolsonaro tenham a mesma sorte dos motoqueiros e fiéis escudeiros do pró-governo que o acompanham regularmente em suas celebrações, em meio a pandemia, sem propósito e sem máscara.

Aproveito, aqui, para lembrar os propósitos que nortearam as manifestações, ou seja, o motivo que levou tanta gente às ruas no sábado, dia 29 de maio:

  • Impeachment do presidente em exercício (que no caso nunca esteve em exercício, mas em espetáculo);
  • Volta do auxílio emergencial de  R$600 ;
  • Ampliação das vacinas disponíveis e organização decente da distribuição,
  • Fim da violência contra as minorias,
  • Suspensão de cortes de verbas na Educação, das privatizações e da reforma administrativa.

 Eu reconheço que foi um ato com muito risco envolvido, mas eu apoio a proposta, e compartilho o sentimento de urgência

quarta-feira, maio 26, 2021

Vida Editável e Com Instruções de Uso

 


Tem horas que eu penso que não deve ser novidade pra ninguém o Black Mirror em que vivemos, mas, olhando com mais atenção, lendo, ouvindo e vendo coisas diariamente, eu tenho outra sensação - a sensação de que tem gente que vive num universo paralelo de conceito, valores e comportamento. Não é possível, que, tendo noção exata da realidade, essas pessoas entrem nesse mar de ondas revoltas e se sintam numa ilha paradisíaca, com águas cristalinas e pura bonança! É gente que aprendeu a editar a imagem da vida, gostou da impressão que causa, e se alienou nessa imagem. E, sim, isso se torna um universo paralelo de noção de vida. Aliás, pior, torna-se uma tendência progressiva, que acaba por gerar um modelo, formatando não apenas comportamentos, mas ideias, pensamentos e valores.

Desnecessário dizer que as redes sociais são vitrine desse perfil, até porque as redes são vitrines do mundo. O mundo fora da internet é um mundo que não existe mais. A percepção está invertida. Este mundo - real e não virtualizado - é que virou uma ilusão. E, nele, muita gente segue morrendo de fome, de doenças básicas e que poderiam ser tratadas, de frio, de falta de esperança, de tristeza, sem filtro.

Eu estou no mundo virtual. Tenho um perfil social e profissional, e tento viver antenada para não perder avanços relevantes que possam impactar minha rotina. Mais recentemente, inclusive, me envolvi com o recurso de Lives, e também procuro me beneficiar de novos modelos de trabalho que essa realidade virtual oferece. Sei que existem muitos que fazem o mesmo, e que, apesar dessa vitrine virtual mitomaníaca, conseguem manter um mínimo de sanidade, e, na contramão do falso modernismo, têm sólidos valores e ideais, com os quais se mantém engajados, e usa as redes para estendê-los; mas, ainda assim, me incomoda demasiado observar essa tendência midiática falsificada, porque tem sido uma maioria expressiva, e tem me “avizinhado” muito de perto…

Curiosa e inevitavelmente, essa vitrine padronizada e distorcida atravessa barreiras, e, embora tenha forte concentração na imagem pessoal, tem crescido e conquistado o âmbito profissional, e, obviamente, o político e o religioso - estes com fartura.

Parece que não existe mais um jeito diferente de se pensar e fazer as coisas, um modo alternativo para realizar projetos, ou uma opinião inusitada sobre um ou outro método e conteúdo. Tudo virou remédio. Tudo tem bula, mestres, doutores e especialistas. Temos conhecimento disponível num clique, mas escolhemos copiar e seguir o “passo a passo” e, depois, criar a própria bula para o passo a passo que seguimos, e por aí vai. Não vai sobrar um leigo sequer nesse mundo!

Mas eu ainda vejo isso como um universo paralelo possível de ser desativado, ou mantido em modo silencioso. Como? Ainda não sei, mas sei que deve ser lento, preciso e constante; e que isso tem a ver com não nos deixarmos afetar, nem calar, ou se abater. O tal silêncio dos bons, que já incomodava o perseverante Luther King, não pode seguir existindo.

Historicamente, as novidades sempre chegam, evoluções aparecem, transformações acontecem. Isso é parte do processo. Contudo, chega a hora em que essas coisas precisam ser filtradas, ou passadas por uma peneira de valor e sentido maior, para prosseguirmos impactados - talvez não ilesos, mas recuperados, curados, e amadurecidos como frutos saudáveis da árvore da vida.

Os olhos são a vitrine da alma. E isso, numa realidade empírica de vida transcendente, nunca vai mudar.
Ser fake é mais que uma opção, é um cárcere de consciência.

 


quarta-feira, maio 12, 2021

Onde Você se Reconhece?


Não sei exatamente quando o espelho passou a fazer parte da vida da humanidade, talvez em histórias como das bruxas dos contos de fadas, sei lá; mas no momento em que isto aconteceu, este simples objeto adquiriu proporções que ultrapassam a futilidade.


Lembram da lenda de Narciso?  Conta a lenda que Narciso era um jovem de singular beleza. No dia de seu nascimento, um adivinho profetizou que ele teria vida longa desde que jamais contemplasse a própria figura. Mas seu egoísmo provocou o castigo dos deuses. Ao observar o reflexo de seu rosto nas águas de uma fonte, apaixonou-se pela própria imagem e ficou a contemplá-la até consumir-se. Dizem que no lugar onde ele morreu, nasceu uma flor, que ficou conhecida pelo seu nome: Narciso. Na psicanálise, o termo narcisismo designa a condição mórbida do indivíduo que tem interesse exagerado pelo próprio corpo.


O tempo passou, o mundo mudou, e aqui estamos nós, numa complexa relação com o tal espelho. E esta complexidade não se restringe ao físico, à cultura do corpo e suas exigências. Acho que inconscientemente, vivemos alguns conflitos também com um suposto espelho que projeta o invisível de nossa intimidade, nossas frustrações, medos, como se ele nos colocasse frente a frente com o irreversível do que nos tornamos ao longo dos anos.


É complicado enxergar-se e reconhecer-se, sem de fato, compreender-se e admirar-se.

Se projetamos nossa imagem e a definimos a partir das relações com as pessoas e circunstâncias, estes (as pessoas e as circunstâncias) supostamente tornam-se nossos espelhos, e nós, espelho dos outros. Pense bem: Nesses relacionamentos espelhados, nos mais variados sentidos, há que se considerar as possíveis distorções, exageros, supervalorizações. Qualquer imagem sofre variações quando passa pelo outro, pelas coisas, e provavelmente comprometerão a reprodução do nosso “eu”. A visão mais confiável seria, então, aquela que não se projeta, mas que se revela na viagem ao centro de si mesmo.


Nossa vida não foi um acidente, por isso, somos mais do que o que nos mostra qualquer conceito de espelho.

É bom ter consciência dos caminhos por onde já passamos, onde estamos, e até onde pretendemos ir; sentir prazer e ver sentido em cada uma dessas etapas. Saber que o centro do universo não mora no nosso “umbigo” e que a vida e seus reflexos não se limitam a nós.  Se conseguirmos considerar assim,  nossa imagem passa a ser refletida com inteireza, numa constante possibilidade de ver-se, rever-se, reverenciar-se e aperfeiçoar-se; sem  soberba, e sem desprezo, apenas reconhecendo limitações naturais, na paz de amar a si mesma e, assim, ser capaz de amar de verdade o outro.


sexta-feira, abril 02, 2021

SAGRADO

 


“Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana”

(Wayne W Dyer)


Toda linguagem sofre a ação do tempo, da cultura, da região; e as palavras usadas na linguagem são diretamente afetadas por esses fatores.
Algumas palavras mudam completamente o sentido, outras perdem a intensidade, e muitos vocábulos novos surgem, influenciados pelo contexto, pela internet, etc.

Com o SAGRADO, pra mim, o que aconteceu é que sempre foi um termo associado ao ambiente e aos assuntos religiosos.
Daí, quando a espiritualidade deixou de se relacionar única e exclusivamente com os templos e seus dogmas, o culto ocupou um patamar maior - saímos do ambiente da religião, e finalmente nos entregamos ao deslumbramento da vida, e começamos entender o magnetismo e os mistérios presentes nas coisas simples e poderosas do dia a dia.
É nesse momento que o SAGRADO deixa de morar exclusivamente nos preceitos religiosos e passa a afetar e contagiar o simples da vida. V
iver passa a ser SAGRADO.

E qual o sentido de SAGRADO?

Não vamos falar em definição de palavra. Quando a gente define, a gente limita, a gente prende. Quando a gente significa, a gente pode ressignificar; a gente mantém as possibilidades de interpretações e sentido; sem definições, e livre para ser, conforme o momento, a cultura, e o entendimento pedirem.

Sagrado é aquilo que envolve algum ritual, que merece dedicação, que é reservado do ordinário, do comum, e  que pode ter vínculo e simbologia espiritual

Tal qual outras vezes na história da humanidade, esta Páscoa (que já é a segunda que nós estamos vivendo num cenário de  calamidade) é uma Páscoa onde os símbolos sagrados da Religião (por definição) devem ser transcendidos. Judeus têm sua história para celebrar, cristãos também têm, agnósticos, ateus, e seja lá mais o que for, todos temos ovos, chocolates, coelhinhos, etc. Mas esta Páscoa merece ir além desse lugar de rituais simbólicos e aproveitarmos para tratar a vida como ela é: SAGRADA.

Existe algo experimentado por nós tão sagrado quanto a vida?  O bem- estar, a Saúde, respeito, recursos naturais, o direito e o prazer de amar e ser amado, os relacionamentos...

Então, como a gente faz para reverenciar essa sacralidade da vida? É o que eu gostaria que a gente pensasse nessa Páscoa.

O dom da vida é inestimável. E não existe religião, ídolos, símbolos, frases prontas, templos abertos ou fechados.. Nada, absolutamente nada, consegue chegar mais perto de Deus que a vida, da qual Ele é fonte.

Preservar, respeitar e compartilhar  a vida é um louvor, um culto, uma celebração.


Feliz Páscoa. Feliz Vida!

 


Envelhecer é diferente de apodrecer

Qual seria a sua idade se você não soubesse quantos anos você tem? (Confúcio) Eu, com certeza, seria velha, em qualquer momento. Devo ter na...